A Rússia reconheceu pela primeira vez desde o início da guerra na Ucrânia que o conflito está afetando diretamente o setor de transporte aéreo do país. Durante uma reunião sobre o desenvolvimento da aviação civil, o presidente russo, Vladimir Putin admitiu que as metas nacionais de tráfego de passageiros para 2026 podem não ser alcançadas e determinou a revisão das projeções oficiais. As informações são da Euronews.
O reconhecimento ocorre em meio a um cenário de crescente pressão sobre as companhias aéreas russas. Passageiros enfrentam atrasos e cancelamentos frequentes, enquanto aeroportos em diversas regiões do país, especialmente na região de Moscou, são obrigados a interromper temporariamente operações devido a ameaças de drones associadas à guerra.

Especialistas apontam que o sistema aéreo russo enfrenta uma combinação de fatores que afeta a capacidade operacional das empresas. Entre eles estão a escassez de aeronaves disponíveis, dificuldades para obter peças de reposição, aumento dos custos de manutenção e restrições impostas pelas sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia em 2022. Diante disso, Moscou até recorreu a aviões soviéticos para evitar colapso aéreo.
A situação é agravada pela crise de combustíveis, impulsionada por ataques ucranianos contra refinarias e infraestrutura energética da Rússia. O impacto se reflete em toda a cadeia logística do país e aumenta os desafios para o setor aéreo durante o período de maior demanda do ano.
Outro problema é a limitação da frota. Sem acesso regular a fabricantes ocidentais, as companhias aéreas russas passaram a depender de importações paralelas para adquirir componentes. Em muitos casos, as peças chegam ao país por valores muito superiores aos praticados no mercado internacional. Algumas empresas também recorrem à chamada “canibalização” de aeronaves, retirando componentes de aviões fora de operação para manter outros em atividade.
Apesar de declarações recentes de Putin afirmando que a Rússia conseguiu substituir importações por produção nacional, os números mostram uma realidade mais complexa. Embora a indústria aeroespacial tenha registrado crescimento, grande parte da expansão está ligada à produção militar, especialmente de drones utilizados na guerra. Na aviação civil, os resultados permanecem abaixo das metas estabelecidas pelo governo.
Os desafios financeiros também aparecem no plano estatal. O governo russo prepara a venda de parte de sua participação na companhia aérea nacional Aeroflot. Analistas avaliam que a medida pode indicar a necessidade de reforçar recursos em um momento de pressão econômica prolongada.
Além dos problemas internos, as companhias aéreas russas enfrentam restrições externas. O fechamento do espaço aéreo da União Europeia (UE) para transportadoras russas e os conflitos no Oriente Médio obrigam a adoção de rotas mais longas, elevando custos operacionais e aumentando o tempo de viagem.
O resultado é uma redução gradual da conectividade internacional. Atualmente, voos diretos partindo da Rússia atendem pouco mais de 30 países, número inferior ao registrado nos meses anteriores e distante dos níveis observados antes da guerra.