Representantes do Taleban e da União Europeia (UE) realizaram nesta terça-feira (23) uma reunião inédita em Bruxelas para discutir a deportação de afegãos, cooperação diplomática e questões migratórias. O encontro ocorreu a portas fechadas e representa um passo significativo nas relações entre o grupo que governa o Afeganistão e os países europeus. As informações são da Associated Press.
Segundo integrantes da delegação afegã, as conversas abordaram medidas de construção de confiança, a presença diplomática talibã na Europa e mecanismos para garantir o chamado “retorno digno” de cidadãos afegãos que vivem em países europeus.
A reunião acontece em um momento de crescente pressão dentro da União Europeia para ampliar as deportações de migrantes que tiveram pedidos de asilo negados ou que cometeram crimes nos países de acolhimento.

Por que a UE quer aumentar as deportações?
Nos últimos anos, os afegãos passaram a representar um dos maiores grupos de solicitantes de asilo na Europa. Diante do aumento da migração irregular e da pressão política interna, diversos governos europeus defendem regras mais rígidas para a permanência de estrangeiros.
Em outubro do ano passado, 20 dos 27 países-membros da União Europeia assinaram uma carta solicitando políticas migratórias mais duras e maior eficiência nos processos de deportação.
De acordo com autoridades europeias, apenas uma pequena parcela dos afegãos que receberam ordem para deixar o bloco retornou efetivamente ao país de origem.
Direitos humanos geram críticas ao encontro
A reunião entre Taleban e União Europeia foi criticada por organizações de direitos humanos. Entidades como Human Rights Watch e Anistia Internacional alertam que o Afeganistão continua sendo um ambiente inseguro para milhares de pessoas.
Desde que retomou o poder em 2021, o regime impôs uma série de restrições às mulheres e meninas, incluindo limitações ao acesso à educação, ao mercado de trabalho e à participação na vida pública.
Para os críticos, qualquer negociação envolvendo deportações pode expor cidadãos afegãos a riscos de perseguição e violações de direitos fundamentais.
Isolamento internacional
Embora nenhum país da União Europeia reconheça oficialmente o governo talibã, o encontro demonstra uma tentativa de diálogo pragmático sobre questões migratórias e diplomáticas.
O governo afegão enfrenta uma grave crise econômica e humanitária, agravada pelo retorno forçado de milhões de afegãos vindos do Paquistão e do Irã. Ao mesmo tempo, busca ampliar sua inserção internacional e reduzir o isolamento político imposto após sua volta ao poder.
Especialistas avaliam que as negociações entre Taleban e UE podem abrir novos canais de comunicação, mas dificilmente resultarão em reconhecimento diplomático formal no curto prazo.
Misoginia
Desde o colapso do governo afegão, a repressão contra mulheres e meninas tem sido marca do Taleban. Elas não podem estudar, trabalhar ou sair de casa desacompanhadas de um homem. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã. E foram relatados casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.
Em 2023, os radicais proibiram inclusive o trabalho das mulheres afegãs em organizações não governamentais e na ONU (Organização das Nações Unidas), o que levou muitas dessas entidades a suspenderem a ajuda humanitária que ofereciam à população do Afeganistão, uma das mais necessitadas de tal suporte em todo o mundo.