Após sofrer ataque hacker, Rússia alerta Ocidente sobre os riscos de ‘conflito militar direto’

"Consequências imprevisíveis", disse autoridade em cibersegurança do Kremlin sobre ataques atribuídos aos EUA e Ucrânia

Após sofrer um ciberataque ao site do Ministério da Habitação, a Rússia enviou um alerta ao Ocidente nesta quinta-feira (9): se continuar a ser desafiada no campo cibernético, com novas investidas contra sua infraestrutura digital, poderá dar uma resposta militar. As informações são da agência Reuters

No último final de semana, o site do órgão governamental teria sido alvo de uma ação hacker. O acesso à página redirecionava os usuários a uma mensagem de “Glória à Ucrânia” em ucraniano.

Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores, a infraestrutura crítica da Rússia e as instituições estatais vêm sofrendo ataques cibernéticos frequentes, com Estados Unidos e Ucrânia sendo apontados como os responsáveis.

“Tenha certeza, a Rússia não deixará ações agressivas sem resposta”, disse a nota assinada pelo chefe de segurança da informação internacional do ministério, Andrei Krutskikh. “Todos os nossos passos serão medidos, direcionados, de acordo com nossa legislação e direito internacional”.

Rússia é país que mais patrocina grupos de hackers: desta vez foi a vítima (Foto: Pixahive/Divulgação)

No início da semana, Krutskikh disse ao jornal russo Kommersant que os EUA “estão usando o regime de Zelensky e o exército de TI (tecnologia da informação) que criou para realizar ciberataques contra nosso país como um aríete”.

Segundo a autoridade, a militarização do ciberespaço pelo Ocidente e as tentativas de transformá-lo em “uma arena de confronto interestatal “aumentaram consideravelmente a ameaça de um “confronto militar direto com consequências imprevisíveis”.

O chefe do Kremlin, Vladimir Putin, disse no mês passado que o número de ataques cibernéticos ao seu país por “estruturas estatais” estrangeiras aumentou, o que fez com que o mandatário pedisse reforço na cibersegurança.

Meios de comunicação atacados

Desde a invasão das tropas russas à Ucrânia em 24 de fevereiro, diversas empresas estatais e veículos de mídia sofreram tentativas de ciberataques. Um dos principais objetivos das ações dos hackers é mostrar informações que estão em desacordo com a narrativa de Moscou sobre o conflito: a de “desnazificar” o país vizinho através de uma “operação militar especial”.

Um dos alvos foi a estação de rádio noticiosa russa Kommersant FM, que teve a programação habitual substituída pelo hino nacional ucraniano e por canções antiguerra na última quarta-feira (8).

A emissora, sediada em Moscou, foi rapidamente retirada do ar após a invasão, mas houve tempo para os ouvintes serem surpreendidos pela música ‘We Don’t Need a War’ (“Nós Não Precisamos de Uma Guerra”), da banda de rock russa Nogu Svelo!.

O diretor da estação, Alexey Vorobyov, confirmou o ciberataque à agência de notícias local Tass. “Fomos mesmo hackeados. Especialistas técnicos estão agora tentando descobrir a origem do ataque”.

No mês passado, a mídia ucraniana mostrou imagens de emissoras de televisão russas que teriam sido hackeadas e passaram a exibir mensagens antiguerra. Um dos textos dizia: “O sangue de milhares de ucranianos e centenas de seus filhos está em suas mãos. A televisão e as autoridades estão mentindo. Não à guerra”.

Já em abril, ciberativistas vazaram dados pessoais de 120 mil militares russos que estariam combatendo em solo ucraniano, bem como dados do Ministério da Cultura, do Banco Central e do Roskomnadzor, órgão regulador de internet e dos meios de comunicação.

Por que isso importa?

Um relatório de segurança digital publicado em maio pela Microsoft expôs a participação de hackers russos na guerra contra a Ucrânia, iniciada no dia 24 de fevereiro. A empresa analisou uma série de ciberataques atribuídos a Moscou e constatou que, em alguns casos, eles inclusive ocorreram em sincronia com operações militares do exército da Rússia.

“A Microsoft observou grupos russos de ameaças cibernéticas realizando ações em apoio aos objetivos estratégicos e táticos de seus militares”, diz o documento. “Às vezes, os ataques à rede de computadores precedem imediatamente um ataque militar, mas esses casos são raros, do nosso ponto de vista”.

Tom Burt, vice-presidente de segurança e confiança do cliente, citou um exemplo da sincronia entre hackers e soldados. “Um ator russo lançou ataques cibernéticos contra uma grande empresa de transmissão em 1º de março, no mesmo dia em que os militares russos anunciaram sua intenção de destruir alvos de “desinformação” ucranianos e dirigiram um ataque com mísseis contra uma torre de TV em Kiev”, disse ele num post publicado em um blog da Microsoft.

De acordo com o relatório, a missão dos hackers nem sempre é comprometer sistemas, e sim difundir desinformação e propaganda. “As operações cibernéticas até agora têm sido consistentes com ações para degradar, interromper ou desacreditar as funções governamentais, militares e econômicas ucranianas, garantir pontos de apoio em infraestrutura crítica e reduzir o acesso do público ucraniano às informações”, afirma o relatório.

O documento diz que analisou cerca de 40 “ataques destrutivos”, sendo 32% contra organizações governamentais ucranianas e mais de 40% direcionados a organizações em setores críticos de infraestrutura.

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