Europa

A pedido da Ucrânia, Praga detém cidadão russo e aumenta tensão com Moscou

O suspeito foi detido com base em uma ordem internacional de prisão relacionado à anexação da Crimeia

O cidadão russo Alexander Franchetti foi detido no domingo (12) no aeroporto internacional de Praga, na República Tcheca, segundo a agência de notícias russa Tass. Fontes policiais locais informam que havia contra o suspeito um mandado de prisão internacional emitido pela Ucrânia, relacionado à anexação da Península da Crimeia.

Agora, a extradição de Franchetti “pode levar muito tempo” disse uma fonte ligada ao Ministério da Justiça tcheco. “Há um certo procedimento que os órgãos devem seguir na hora de tomar uma decisão sobre o assunto. O objetivo é garantir o cumprimento da lei e dos direitos da pessoa cuja extradição é procurada por outro país”, destacou a fonte não identificada.

Segundo o mesmo informante, qualquer afirmação de que Franchetti poderia ser entregue às autoridades de Kiev imediatamente “não têm nada a ver com a situação real”.

A detenção do russo pode estar ligada à sua participação ativa nos eventos de 2014 em torno da reunificação da Crimeia com a Rússia.

Alexander Franchetti foi levado sob custódia ao desembarcar no aeroporto de Praga (Foto: harry_nl/Reprodução Flickr)

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, emitiu um comunicado sobre a questão. “Exigimos, na conversa com o embaixador tcheco em Moscou, Vitezslav Pivonka, informações detalhadas sobre os motivos por trás das ações da autoridades tchecas e quais as acusações contra o cidadão russo”, disse ela.

Zakharova ainda citou as relações diplomáticas conturbadas entre os dois países. Segundo ela, a continuação “da política destrutiva de Praga em relação à Rússia e seus cidadãos levará a uma maior deterioração” das relações bilaterais e não ficará sem resposta.

Por que isso importa?

A relação bilateral tem se agravado devido a questões históricas, como a remoção da estátua do marechal soviético Ivan Konev. O monumento ficava em uma praça em Praga e é alvo de atrito desde 2018. Também foi condenada pelos russos a mudança de nome da praça em frente à embaixada russa em Praga, que ganhou o nome do opositor Boris Nemtsov, morto em 2005.

Outro incidente que pesou bastante no estremecimento das relações entre Praga e Moscou foi a explosão de um depósito de armas na cidade tcheca de Vrbetice, em outubro de 2014.  No incidente, cerca de 50 toneladas métricas de munição armazenadas no local foram destruídas. Dois meses depois, outra explosão destruiu 13 toneladas de munição no mesmo depósito.

Uma investigação concluída por Praga em abril deste ano apontou que as explosões foram causadas pelos mesmos agentes russos responsáveis pela tentativa de envenenamento do agente duplo Sergei Skripal, no Reino Unido, em 2018.

Os dois espiões, coronéis Alexander Mishkin e Anatoly Chepiga, teriam realizado ainda quatro ataques em fábricas de armamentos na Bulgária entre 2011 e 2020. Em Gorni Lom, na fronteira com a Sérvia, uma explosão que matou 15 pessoas em 2014 também é atribuída à dupla de agentes russos.

O governo da República Tcheca pediu formalmente uma indenização à Rússia pelas explosões. De acordo com o portal Echo24, o valor da indenização precisaria chegar a 700 milhões de coroas tchecas (R$ 162,2 milhões) para compensar as perdas. Esse é o valor que o governo tcheco pagará aos municípios que tiveram prejuízo com as explosões.

O desacerto entre os dois governos levou inclusive a expulsões recíprocas de diplomatas. Em junho, a Rússia expulsou dois membros do corpo diplomático tcheco em resposta a uma ação idêntica de Praga. O Ministério das Relações Exteriores russo acusa a República Tcheca de tentar, de forma deliberada, aumentar a tensão entre as nações.