Na Rússia, Google censurou a palavra ‘guerra’ para se referir ao conflito na Ucrânia

Determinação da empresa de tecnologia está em conformidade com a censura imposta pelo Kremlin durante a guerra
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Tradutores a serviço do Google na Rússia receberam a determinação de não usar a palavra “guerra” ao se referirem ao conflito em andamento na Ucrânia, segundo informações do site The Intercept. A determinação da empresa de tecnologia está em conformidade com a censura imposta pelo Kremlin.

Um e-mail foi enviado aos colaboradores com a orientação. A palavra “guerra” poderia ser usada livremente em outras circunstâncias, jamais em referência à guerra desencadeada pela invasão russa à Ucrânia no dia 24 de fevereiro. Oficialmente, Moscou adota a expressão “operação militar especial”.

De acordo com um tradutor que atou a serviço da empresa norte-americana e pediu para não ser identificado, a norma se aplica a todos os produtos, entre eles Google Maps, Gmail e quaisquer comunicações entre o Google e os usuários.

Página principal do Google, em abril de 2020 (Foto: Nathana Rebouças/Unplash)

Em diversos documentos em russo analisados, a palavra “guerra”, que seria a mais adequada, é substituída por termos vagos como “emergência”. Os mesmos documentos, porém em inglês, usam normalmente a palavra “guerra”.

A determinação obedece uma nova lei assinada pelo presidente Vladimir Putin no início do mês, que impõe duras punições àqueles que divulgarem notícias sobre a guerra consideradas “falsas” pelo governo russo. A punição àqueles que desrespeitarem a lei é de até dez anos de prisão. Em casos que a Justiça considere terem gerado “consequências sérias”, a punição sobe para até 15 anos. 

Segundo Alex Krasov, porta-voz do Google na Rússia, a censura tem como foco a “segurança de nossos funcionários locais”.

Censura de guerra

Desde o início da guerra na Ucrânia, o Roskomnadzor, órgão estatal regulador da mídia na Rússia, tem acusado inúmeros veículos de imprensa locais de publicarem “informações falsas” sobre a guerra.

O governo contesta quaisquer relatos de bombardeios russos a cidades ucranianas e baixas civis, bem como textos que usem expressões como “ataque”, “invasão” ou “declaração de guerra”. Moscou exige que se fale em “operação especial nas Repúblicas Populares de Lugansk e Donetsk” e determina que sejam publicadas apenas informações distribuídas por fontes do governo.

Nesse cenário, autoridades ameaçaram multar ou bloquear dez meios de comunicação independentes se não apagassem publicações sobre o conflito, de acordo com a ONG Human Rights Watch (HRW). Moscou ainda interferiu no acesso ao Facebook e ao Twitter e bloqueou outros sites de mídia cujas publicações não seguiam as diretrizes da propaganda do Kremlin.

Durante a guerra, o principal objetivo de Moscou ao controlar a mídia é transmitir uma imagem favorável ao governo.

Jornal desativado

O jornal independente russo Novaya Gazeta, comandado por Dmitry Muratov, vencedor do Prêmio Nobel da Paz, anunciou na segunda-feira (28) que suspenderá suas atividades temporariamente. O periódico tomou a decisão em virtude justamente da censura estatal russa em meio à guerra na Ucrânia.

O periódico diz que recebeu advertências do governo de que seria alvo de ações judiciais que poderiam ocasionar sua extinção. “Depois disso, estamos interrompendo o lançamento do jornal no site, nas redes (sociais) e no papel até o final da ‘operação especial no território da Ucrânia'”, disse o jornal, usando a expressão imposta por Moscou.

Na semana passada, Muratov anunciou que estava colocando sua medalha do Prêmio Nobel em leilão para arrecadar fundos para ajudar alguns dos mais de 3 milhões de ucranianos que fugiram do país desde a invasão russa em 24 de fevereiro.

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