Al-Qaeda tem ‘porto seguro’ no Afeganistão e usa talibã para se fortalecer, diz ONU

Documento da ONU afirma que líderes do grupo extremista vivem em território afegão, bem como um contingente de até 400 combatentes

Um relatório do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) divulgado no sábado (28) afirma que “a relação entre o Taleban e a Al-Qaeda permanece próxima” e que a organização terrorista tem no Afeganistão um “porto seguro”, com “maior liberdade de ação”. A Al-Qaeda, inclusive, teria usado a ascensão talibã ao poder como ferramenta de propaganda para se fortalecer globalmente.

O documento destaca que mesmo dentro do Taleban há figuras questionadas internacionalmente, vez que o grupo nomeou “41 indivíduos sancionados pelas Nações Unidas para o gabinete e outros cargos de alto nível em sua administração de fato”.

Uma dessa figuras é Sirajuddin Haqqani, ministro do Interior afegão e também um dos terroristas mais procurados do mundo, com recompensa de US$ 10 milhões oferecida pelo Departamento de Estado norte-americano.

O atual ministro talibã é o idealizador da Rede Haqqani, um grupo extremista originário do Paquistão que passou a atuar sobretudo no leste do Afeganistão e em Cabul nos tempos da ocupação estrangeira.

“Sob o comando de Hibatullah Akhundzada, várias facções do Taleban estão manobrando para obter vantagens, sendo a Rede Haqqani a mais bem-sucedida e influente entre elas”, diz o relatório.

Ayman Al-Zawahiri, líder da Al-Qaeda, em vídeo com críticas à ONU (Foto: reprodução/Twitter)
O favorecimento da Al-Qaeda

A Al-Qaeda é uma das facções que se beneficiaram da ascensão dos talibãs ao poder, em agosto do ano passado. O grupo extremista “celebrou o sucesso” do Taleban, “renovando sua promessa de fidelidade a Hibatullah”, diz o relatório, que complementa: “As avaliações dos Estados-Membros até agora sugerem que a Al-Qaeda tem um porto seguro sob o Taleban e maior liberdade de ação”.

Em fevereiro deste ano, outro relatório do Conselho de Segurança havia sugerido inclusive que um dos filhos de Osama Bin Laden, Abdallah, visitou o Afeganistão em outubro de 2021 para reuniões com o Taleban.

Já o documento mais recente afirma que “a Al-Qaeda usou a ascensão do Taleban para atrair novos recrutas e financiamento e inspirar os afiliados da Al-Qaeda globalmente”. Diz ainda que o atual líder da organização, Ayman al-Zawahri, que foi o braço direito de Bin Laden, continua a viver no Afeganistão, bem como seus comandantes mais próximos.

“Relata-se que a Al-Qaeda permanece no sul e leste do Afeganistão, onde teve uma presença histórica”, diz o relatório divulgado neste sábado. “O grupo supostamente tem de 180 a 400 combatentes, com as estimativas dos Estados-Membros inclinando-se para o número mais baixo”, prossegue o documento, que cita cidadãos de Bangladesh, Índia, Mianmar e Paquistão como sendo integrantes da facção.

Um antigo temor do Conselho de Segurança que parece não ter confirmado, ao menos na magnitude imaginada, é a entrada de terroristas internacionais no país. “A realocação de combatentes terroristas estrangeiros para o Afeganistão não se materializou em números significativos”, diz o documento. “O Taleban continua a insistir publicamente que não há combatentes terroristas estrangeiros no Afeganistão, embora os Estados-Membros tenham certeza de que muitos lutaram ao lado do Taleban em 2021”.

Ainda segundo o relatório, “há relatos de que o Taleban forçou alguns combatentes terroristas estrangeiros a se desarmar ou realocou outros para longe da capital para, que permanecessem imperceptíveis. Entretanto, não há exatamente uma repressão contra esses extremista: “Os combatentes terroristas estrangeiros são vistos pelo Taleban principalmente como ‘irmãos de fé’ e não mercenários, pois não recebem benefícios financeiros significativos do Taleban”.

No Brasil

Casos mostram que o Brasil é um porto seguro para extremistas. Em dezembro de 2013, levantamento do site The Brazil Business indicava a presença de ao menos sete organizações terroristas no Brasil: Al Qaeda, Jihad Media Battalion, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Al-Gama’a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Islâmico Marroquino.

Em 2001, uma investigação da revista VEJA mostrou que 20 membros terroristas de Al-Qaeda, Hamas e Hezbollah viviam no país, disseminando propaganda terrorista, coletando dinheiro, recrutando novos membros e planejando atos violentos.

Em 2016, duas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista islâmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao Estado Islâmico foram presos e dois fugiram.

Mais recentemente, em dezembro de 2021, três cidadãos estrangeiros que vivem no Brasil foram adicionados à lista de sanções do Tesouro Norte-americano. Eles são acusados de contribuir para o financiamento da Al-Qaeda, tendo inclusive mantido contato com figuras importantes do grupo terrorista.

Para o tenente-coronel do Exército Brasileiro André Soares, ex-agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), o anúncio do Tesouro causa “preocupação enorme”, vez que confirma a presença do país no mapa das organizações terroristas islâmicas.

“A possibilidade de atentados terroristas em solo brasileiro, perpetrados não apenas por grupos extremistas islâmicos, mas também pelo terrorismo internacional, é real”, diz Soares, mestre em operações militares e autor do livro “Ex-Agente Abre a Caixa-Preta da Abin” (editora Escrituras). “O Estado e a sociedade brasileira estão completamente vulneráveis a atentados terroristas internacionais e inclusive domésticos, exatamente em razão da total disfuncionalidade e do colapso da atual estrutura de Inteligência de Estado vigente no país”. Saiba mais.

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