Inflação reduz poder de compra da classe média e atinge famílias de baixa renda, diz OIT

Entre as causas do aumento dos preços estão a guerra na Ucrânia e a crise global de energia, de acordo com a agência

Um novo relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que a crise global está reduzindo o poder de compra da classe média e atingindo particularmente as famílias de baixa renda. 

A grave crise inflacionária, combinada com uma desaceleração do crescimento econômico, vem causando uma queda acentuada nos salários mensais de fato em muitos países. Entre as causas do aumento dos preços estão a guerra na Ucrânia e a crise global de energia

O relatório estima que os ordenados mensais globais caíram em termos reais para menos 0,9% no primeiro semestre deste ano. É a primeira vez, neste século, que o crescimento global dos salários efetivos foi negativo. 

O diretor do Escritório da OIT no Brasil, Martin Hahn, alerta que os salários já vinham sendo impactados pela pandemia de Covid-19, o que afetou trabalhadores informais, de baixa remuneração e mulheres. 

“Entre países e regiões, em média, cada trabalhador assalariado perdeu cerca de quatro semanas de salário entre 2020 e 2021. Mas, se ampliarmos para países emergentes de baixa renda, o número de semanas perdidas em salários é significativamente maior. Em alguns casos, atinge até 40 semanas perdidas em salários, em média nesses dois anos”, disse ele.

Hahn diz que certos grupos foram mais prejudicados que outros na pandemia. “Mulheres, trabalhadores com baixa remuneração e trabalhadores da economia informal perderam mais durante os anos da Covid-19 em comparação com outros grupos e os trabalhadores assalariados do mercado de trabalho”. 

O diretor explica que, entre os países avançados do G20, estima-se que os salários reais no primeiro semestre de 2022 tenham caído para menos 2,2%, enquanto os salários reais nos países emergentes do G20 cresceram 0,8%, 2,6% menos do que em 2019, um ano antes da pandemia de Covid-19.  

Notas de yuan e dólar, novembro de 2019 (Foto: Divulgação/Unsplash/ Eric Prouzet)
Os países de língua portuguesa

Em relação ao Brasil, o diretor do escritório da OIT no país ressaltou uma redução de 7%. Já em relação a Portugal e Moçambique houve um aumento de 2,5% e 0,9%, respectivamente, no ano passado. 

Martin Hahn falou do quadro para este ano: “Em cada caso, o crescimento médio dos salários reais diminuiu 6,9% no Brasil e 3,1% em Portugal. Em muitos outros países, especificamente de rendas média e baixa, o uso de estímulo foi escasso ou insuficiente, devido à falta de espaço fiscal para aumentar os gastos no momento da crise. Isso fez com que o crescimento salarial já diminuísse nesses países em 2020″.

Segundo a OIT, a inflação tem um impacto maior sobre empregados com baixos salários. A crise do custo de vida se soma às perdas salariais significativas para os trabalhadores e suas famílias durante a crise da Covid-19, que em muitos países teve maior impacto nos grupos de baixa renda. 

O relatório mostra que o impacto do aumento no custo de vida para os assalariados de baixa renda ocorre porque eles gastam a maior parte de sua renda disponível em bens e serviços essenciais, que geralmente sofrem maiores aumentos de preços do que itens não essenciais. 

A OIT também destaca que a inflação está afetando o poder de compra de quem ganha salário-mínimo. As estimativas mostram que, apesar dos ajustes nominais em andamento, a aceleração da inflação de preços está corroendo rapidamente o valor real desses rendimentos em muitos países. 

Soluções à vista

Segundo a análise, há uma necessidade urgente de aplicar medidas políticas bem concebidas para ajudar a manter o poder de compra e os padrões de vida dos trabalhadores assalariados e suas famílias. O ajuste adequado do salário-mínimo pode ser uma ferramenta eficaz. Um forte diálogo social e negociação coletiva também devem ajudar a alcançar ajustes salariais adequados durante uma crise. 

Outras políticas que podem aliviar o impacto da crise do custo de vida nas famílias incluem medidas direcionadas a grupos específicos, como dar ajuda a famílias de baixa renda para ajudá-las a comprar bens essenciais ou reduzir os impostos sobre esses bens. 

“Devemos dar atenção especial aos trabalhadores nas extremidades média e inferior da escala salarial. Lutar contra a deterioração dos salários reais pode ajudar a manter o crescimento econômico, o que, por sua vez, pode ajudar a recuperar os níveis de emprego observados antes da pandemia. Essa pode ser uma maneira eficaz de diminuir a probabilidade ou a profundidade das recessões em todos os países e regiões”, disse Rosalia Vazquez-Alvarez, uma das autoras do relatório. 

O diretor-Geral da OIT, Gilbert F. Houngbo destacou as “incertezas crescentes” enfrentadas por dezenas de milhões de trabalhadores. “A desigualdade de renda e a pobreza aumentarão se o poder de compra dos mais mal pagos não for mantido. Além disso, uma recuperação pós-pandêmica muito necessária pode ser colocada em risco. Isso poderia alimentar mais agitação social em todo o mundo e minar o objetivo de alcançar a prosperidade e a paz para todos”, disse ele. 

Conteúdo adaptado do material publicado originalmente pela ONU News

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