China pune humorista uigur por piadas sobre casamento e gera reação nas redes

Suspensão da comediante no Weibo, em meio a campanha da Administração do Ciberespaço da China, reacende debate sobre censura, casamento e queda na natalidade no país

A suspensão da humorista uigur Xiao Pa das redes sociais chinesas provocou forte repercussão online e reacendeu o debate sobre censura, papéis de gênero e a crise demográfica no país. A comediante foi banida de publicar no Weibo sob a acusação de “incitar conflitos de gênero” e “criar ansiedade em relação ao casamento e à maternidade”. As informações são do South China Morning Post.

Segundo comunicado divulgado por um administrador verificado da plataforma, a punição ocorreu no contexto de uma campanha de “limpeza do ciberespaço” promovida pela CAC (Administração do Ciberespaço da China, da sigla em inglês). A iniciativa, lançada antes do Ano-Novo Chinês, determina medidas contra conteúdos que “incitem emoções negativas” ou promovam valores considerados prejudiciais, como ideias anti-casamento e antinatalistas.

Xiao Pa durante uma gravação de stand-up comedy na China (Foto: Captura de tela/reprodução)
Quem é Xiao Pa

Xiao Pa, cujo nome verdadeiro é Paziliyaer Paerhati, iniciou a carreira como comediante de stand-up em 2020 e ganhou notoriedade ao participar do programa online Rock and Roast. Conhecida por abordar temas familiares e experiências pessoais, ela frequentemente faz piadas sobre o pai, que se casou várias vezes, e sobre as pressões sociais relacionadas ao casamento.

A publicação que resultou na punição dizia: “Fiquei com febre por dois dias e pensei que, se tivesse marido e filhos, teria de me encostar na parede para conseguir ficar de pé e ainda cozinhar para eles.” Para as autoridades, o comentário ampliaria a ansiedade social em torno do matrimônio e da maternidade.

Campanha contra “emoções negativas”

A campanha da CAC também mira contas que utilizam inteligência artificial para gerar conteúdo considerado “lixo digital”, além de combater jogos de azar online e pornografia. No entanto, o caso de Xiao Pa chamou atenção por envolver críticas bem-humoradas a expectativas tradicionais de gênero.

O órgão regulador incluiu entre os exemplos de conteúdo proibido a promoção da recusa ao casamento, a defesa de ideias antinatalistas e a incitação de conflitos entre homens e mulheres.

Reação nas redes

A decisão gerou intenso debate nas redes sociais chinesas. Muitos usuários afirmaram que a comediante “apenas disse a verdade” e que suas observações refletem a realidade de muitas mulheres, que acumulam responsabilidades domésticas mesmo quando estão doentes ou exaustas.

O episódio ocorre em um momento de preocupação crescente com a queda nas taxas de casamento e natalidade na China. Em 2025, o país registrou 7,92 milhões de nascimentos, o menor número desde o início dos registros, em 1949, e uma redução de 17% em relação ao ano anterior.

Diante desse cenário, autoridades têm lançado campanhas para incentivar casamentos “civilizados”, sem dote ou extravagância, e reforçar valores familiares tradicionais. Para muitos jovens, no entanto, o casamento passou a ser visto como escolha pessoal, e não mais como obrigação social.

Por que isso importa?

Os uigures são uma minoria muçulmana de raízes turcas que sofre perseguição do governo chinês, com acusações de abusos diversos. Eles vivem sobretudo na província de Xinjiang, que faz fronteira com países da Ásia Central e com eles divide raízes linguísticas e étnicas.

Os de 11 milhões de uigures enfrentam discriminação da sociedade e do governo chinês e são vistos com desconfiança pela maioria han, que responde por 92% dos chineses. Denúncias dão conta de que Beijing usa de tortura, esterilização forçada, trabalho obrigatório e maus tratos para realizar uma limpeza étnica e religiosa em Xinjiang.

Em agosto de 2022, a ONU divulgou um aguardado relatório que fala em “graves violações dos direitos humanos” cometidas em Xinjiang. O documento destaca “padrões de tortura ou maus-tratos, incluindo tratamento médico forçado e condições adversas de detenção”, bem como “alegações de incidentes individuais de violência sexual e de gênero”.

O relatório, porém, não citou a palavra “genocídio” usada por alguns países ocidentais. O governo do presidente Joe Biden, dos EUA, foi o primeiro a usar o termo para descrever as ações da China em relação aos uigures. Em seguida, Reino Unido e Canadá também passaram a usar a designação, e a Lituânia se juntou ao grupo mais recentemente.

A China nega as acusações de que comete abusos em Xinjiang e diz que as ações do governo na região têm como finalidade a educação contraterrorismo, a fim de conter movimentos separatistas e combater grupos extremistas religiosos que eventualmente venham a planejar ataques terroristas no país. Beijing costuma classificar as denúncias como “a mentira do século”.

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