Ataque aéreo atribuído ao Exército deixa dezenas de mortos no Sudão: ‘Carnificina’

Forças armadas teriam agido em uma região controlada por grupo armado rival em meio ao conflito civil no país africano

Dezenas de pessoas morreram em um ataque aéreo que atingiu um mercado de Cartum, a capital do Sudão, no domingo (10). Ativistas que atuam no conflito civil instalado no país africano desde abril atribuem a responsabilidade às forças armadas, que travam uma disputa por poder com uma milícia armada conhecida como Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês).

De acordo com a rede BBC, até o final da tarde de domingo, pelo horário local, haviam sido confirmadas 35 mortes. Já o site The Defense Post, com base em informações da Agência France Presse (AFP), relata 46 vítimas fatais confirmadas. Ambos citam ainda dezenas de feridos.

Marie Burton, coordenadora de emergência da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), diz que, mesmo após quase seis meses, voluntários e médicos de um hospital local que recebe pessoas feridas “estão chocados e sobrecarregados devido à escala de horror” que testemunharam em Cartum.

“Estamos tentando salvar a vida de pessoas cujas partes do corpo foram arrancadas pela explosão. Foi uma carnificina”, disse a representante da MSF. “Deixei de contar quantos feridos chegaram. Dupla amputação dos braços para um paciente, cirurgias viscerais… As lesões são insuportáveis.”

Ante à gravidade do ataque, o hospital de Bashair, que tem recebido os feridos, convocou todos os médicos disponíveis na área a comparecerem.

Boa parte da cidade de Cartum está sob controle das RSF, o que explica os frequentes ataques aéreos realizados pelas forças armadas. Em julho, uma ação semelhante na cidade vizinha de Omdurman matou ao menos 20 pessoas. O mesmo número de vítimas fatais foi estimado em outro ataque aéreo, este na semana passada no sul da capital sudanesa.

O general Abdel Fattah al-Burhan, que lidera o Exército no conflito do Sudão (Foto: Reprodução de vídeo)
Por que isso importa?

O Sudão vive um violento conflito armado que coloca frente a frente dois generais que comandam o país africano desde o golpe de Estado de 2021: Abdel Fattah al-Burhan, chefe das Forças Armadas Sudanesas (SAF, na sigla em inglês), e Mohamed Hamdan “Hemedti” Daglo, à frente das RSF.

As tensões decorrem de divergências sobre como cem mil combatentes da milícia paramilitar devem ser integrados ao Exército e quem deve supervisionar esse processo. 

No dia 16 de abril, um domingo, explosões puderam ser ouvidas no centro da capital Cartum, mais precisamente no entorno do quartel-general militar do Sudão e do palácio presidencial, locais estratégicos reivindicados tanto por militares quanto pelas RSF.

O aeroporto internacional da capital, tomado pela milícia, foi bombardeado com civis dentro. Aeronaves foram destruídas, e caças da força aérea sudanesa e tanques foram usados contra os paramilitares.

Desde que o conflito se espalhou, primeiro pela capital, depois por outras regiões do país, as nações estrangeiras que tinham cidadãos e representantes diplomáticos no Sudão realizaram um processo de evacuação, viabilizado por um frágil cessar-fogo que não foi totalmente respeitado pela partes.

Os números de civis mortos e vítimas de abusos diversos não param de crescer desde então. A situação levou o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres, a dizer em julho que o país africano está “à beira de uma guerra civil“.

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