África

O que você precisa saber sobre a crise política no Mali

País vive nova ruptura institucional com queda do presidente nesta terça, após um motim na capital, Bamako

A derrubada do presidente do Mali, Ibrahim Boubacar Keita, nesta terça (18) é o capítulo mais recente de uma crise política que começou em 2012, com um princípio de guerra civil no norte do país.

A derrocada de Keita, no entanto, tem como marco inicial sua controversa reeleição, em 2018. À época, a oposição contestou o pleito após indícios de fraude e irregularidades diversas.

Em março deste ano, em meio à pandemia do novo coronavírus, o governo malinês realizou eleições legislativas. No mesmo mês, o líder da oposição, Soumaila Cissé, foi sequestrado e está desaparecido desde então.

O que você precisa saber sobre a crise política no Mali
Famílias aguardam atendimento da ONU em Gao, norte do Mali, em imagem de março de 2019 (Foto: UN Photo/Gema Cortes)

Em abril, a corte constitucional do país concedeu, após litígio, mais dez cadeiras do Parlamento ao partido de Keita, dando a ele a maioria. A manobra foi vista como um “tapetão” do governo contra opositores.

Foi quando o clérigo muçulmano Mahmoud Dicko passou a pedir a renúncia de Keita, com seu Movimento 5 de Junho. O premiê Soumeylou Boubèye Maïga e o gabinete foram destituídos, deixando o presidente sem governo até o fim de julho.

A crise econômica gerada pela pandemia piorou a situação do já frágil governo. Houve forte queda na demanda pelos principais produtos do país, ouro e algodão, que já vinha em baixa nos últimos anos pelos constantes conflitos no interior malinês.

Mediação externa

A Ecowas (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) tenta mediar a mais recente crise malinesa.

O grupo defende a renúncia dos parlamentares conduzidos pela decisão da corte, a formação de um governo de transição e um novo chamado às urnas.

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Soldado das Nações Unidas patrulha Ménaka, no nordeste do Mali, em janeiro de 2019 (Foto: UN Photo/Harandane Dicko)

A União Africana, as Nações Unidas e própria Ecowas condenaram a “mudança inconstitucional” no país, com longo histórico de golpes militares e rupturas institucionais violentas.

Já a França, antiga metrópole, é acusada de excessiva interferência nos assuntos locais.

Os passos para crise

O Mali enfrenta simultaneamente a crise política e o avanço de grupos jihadistas no interior do país – problema que se acentuou depois de 2012.

Naquele ano, militantes extremistas islâmicos conseguiram tomar quase dois terços do território. As vitórias militares ocorriam nas franjas da insurgência de tribos tuaregues, que habitam o norte do país.

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Carro das Nações Unidas baleado após ataque de extremistas em Aguelhok, no Mali, em janeiro de 2019 (Foto: UN Photo/Marco Dormino)

À época, a França enviou tropas à capital Bamako para controlar a guerra civil que se esboçava. Até hoje, jihadistas e o governo disputam territórios, sobretudo na região centro-norte do país.

Na capital, um motim de soldados – que começou no mesmo batalhão do movimento desta terça – virou golpe militar contra o então presidente Amadou Toumani. Era um protesto ao que as Forças Armadas entendiam como uma “resposta fraca” à crise.

Acordo insuficiente

Após a deposição de Toumani, Keita foi eleito em 2013, com a promessa pacificar o território.

Em 2015, assina um acordo de paz considerado incompleto, sem a presença de grupos como aqueles derivados do extremismo muçulmano da Al-Qaeda e Estado Islâmico.

Hoje, a maioria dos ataques de grupos extremistas muçulmanos no país é planejada fora de suas fronteiras, nos vizinhos Burkina Faso e Níger.

Em julho, houve uma cúpula entre esses países, localizados na região do Sahel – faixa de terra fértil que separa o desértico norte da África das áreas ao sul.

A meta era estabelecer medidas de cooperação militar que resolvessem o problema nas fronteiras. Dados da ONU (Organização das Nações Unidas) indicam que o conflito em Burkina Faso, por exemplo, já tirou um milhão de pessoas de suas casas.

O temor dos países europeus é o de que os recursos investidos pela França em contraterrorismo no Sahel tenha sido usado em vão. A chamada Operação Barkhane, que patrulha a região, custa US$ 1 bilhão por ano e já recebeu em Paris a alcunha de “guerra eterna”.