Américas

Para ONG, governo boliviano usa Justiça para impedir candidatura de Evo Morales

Acusações de terrorismo a Morales teriam motivação política, após remoção e acusação de fraude eleitoral

O governo interino da Bolívia se utiliza do sistema de Justiça para impedir um retorno do ex-presidente Evo Morales e seus apoiadores ao poder, afirmou o último relatório da HRW (Human Rights Watch), publicado na sexta (11).

De acordo com a entidade, as acusações de que Morales possui envolvimento com terrorismo parecem ter motivação política. A HRW pontuou que não houve qualquer pressão por investigações sobre os homicídios registrados quando a interina, Jeanine Añez, assumiu o país.

A atual presidente e candidata Áñez chegou ao poder após a remoção de Morales, acusado de fraude eleitoral, em novembro de 2019.

À época, 35 pessoas foram mortas e mais de 800 ficaram feridas durante os protestos violentos que tomaram o país. Ao menos duas pessoas morreram durante combates diretos entre a polícia e manifestantes, registrou a HRW.

Governo boliviano usa Justiça para perseguir Evo Morales e adeptos, diz ONG
O presidente Evo Morales no Palácio Quemado, na capital da Bolívia, La Paz, em agosto de 2018 (Foto: Flickr/Eneas de Troya)

O diretor das Américas da HRW, José Miguel Vivanco, afirmou ao diário britânico “Financial Times” que as violações nas investigações judiciais se intensificaram depois que o líder latino-americano deixou o poder. Morales está exilado na Argentina desde novembro.

“O governo interino pressionou promotores e juízes para promover os seus interesses. Mais de 100 pessoas ligadas ao governo de Morales estão sendo investigadas criminalmente por suposta sedição ou terrorismo“, afirmou Vivanco. A pena pode chegar a 20 anos de prisão.

O arquivo de investigação contra Morales já alcança 1,5 mil páginas. Segundo Vivanco, a única evidência de terrorismo se baseia em um telefonema em que o ex-presidente chama seus partidários a lutarem e impedirem que alimentos entrem nas cidades.

Este movimento, no entanto, não chega ao nível de “qualquer definição razoável de terrorismo”, disse o representante da organização.

Áñez assumiu o poder da Bolívia com a promessa de instaurar eleições no início de 2020. Com a pandemia, o pleito foi postergado duas vezes. Mesmo em meio a protestos, a votação está agendada para o dia 18 de outubro.