Por que a China fracassou no futebol apesar dos bilhões investidos e do plano de Xi Jinping

Corrupção, interferência política e falhas na formação de atletas ajudam a explicar por que a seleção chinesa segue distante da elite mundial, mesmo após anos de investimentos e metas ambiciosas do governo

A eliminação precoce da China nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026 reacendeu um debate antigo: como um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes e investimentos bilionários no esporte continua incapaz de formar uma seleção competitiva de futebol? As informações são da The Economist.

A questão ganha ainda mais relevância diante do histórico envolvimento do presidente chinês, Xi Jinping, com o esporte. Em 2011, antes de assumir a liderança máxima do país, Xi revelou três grandes objetivos para o futebol chinês: classificar a seleção para a Copa do Mundo, sediar o torneio e conquistar o título mundial.

Passados 15 anos, apenas um desses objetivos foi parcialmente alcançado. A China participou da Copa apenas uma vez, em 2002, e desde então não voltou ao principal torneio do futebol mundial.

Workers Stadium, em Beijing (Foto: WikiCommons)
Investimentos bilionários não geraram resultados

Em 2015, o governo chinês lançou um ambicioso plano de desenvolvimento do futebol. A estratégia previa a expansão da prática esportiva nas escolas, a construção de milhares de campos e o fortalecimento da liga nacional.

O projeto atraiu grandes investimentos. Clubes da Superliga Chinesa passaram a contratar estrelas internacionais e técnicos renomados, enquanto empresários chineses adquiriram participações em equipes europeias.

Na época, o crescimento financeiro do futebol chinês chegou a preocupar dirigentes das principais ligas da Europa. No entanto, os resultados dentro de campo nunca acompanharam os gastos.

Corrupção e escândalos atingem o futebol chinês

Especialistas apontam que um dos principais obstáculos para o desenvolvimento do esporte no país foi a sucessão de escândalos envolvendo manipulação de resultados, apostas ilegais e corrupção.

Nos últimos anos, dirigentes, árbitros e integrantes da estrutura esportiva chinesa foram alvo de investigações. As punições afetaram diversos clubes da elite nacional e contribuíram para a perda de credibilidade do campeonato.

Além disso, a dependência do futebol em relação ao aparato estatal também é apontada como um problema estrutural. A Associação Chinesa de Futebol opera sob forte influência governamental, o que limita a autonomia das decisões esportivas.

Modelo centralizado enfrenta limites

Analistas avaliam que a estratégia utilizada pelo governo chinês para desenvolver o futebol seguiu o mesmo modelo que impulsionou setores como infraestrutura e indústria tecnológica: planejamento centralizado, metas rígidas e forte intervenção estatal.

Entretanto, o futebol costuma prosperar em ambientes mais orgânicos, sustentados por clubes locais, competições de base e desenvolvimento gradual de talentos.

Enquanto países com tradição no esporte investem em estruturas comunitárias e formação de longo prazo, a China tentou acelerar o processo por meio de grandes investimentos e diretrizes governamentais.

O resultado foi um crescimento artificial que não conseguiu produzir jogadores capazes de competir em alto nível internacional.

Sonho de sediar a Copa do Mundo também perdeu força

Outro objetivo de Xi Jinping era trazer a Copa do Mundo para a China. Durante anos, dirigentes da FIFA demonstraram confiança de que o país receberia uma edição do torneio.

No entanto, a definição das sedes de 2030 e 2034 afastou essa possibilidade no curto prazo. Considerando o sistema de rodízio continental adotado pela FIFA, a primeira oportunidade realista para a China sediar o Mundial seria apenas na década de 2040.

Ao mesmo tempo, sinais recentes indicam que o futebol deixou de ocupar posição prioritária dentro da agenda política chinesa.

Torcida continua apaixonada pelo esporte

Apesar dos resultados decepcionantes da seleção, o interesse dos torcedores permanece elevado. Jogos internacionais realizados em território chinês seguem atraindo grande público e demonstram que o futebol continua sendo uma das modalidades mais populares do país.

O contraste entre a paixão da torcida e o desempenho da equipe nacional resume o desafio enfrentado pela China. Embora possua recursos financeiros, estrutura e uma população gigantesca, o país ainda busca a fórmula para transformar seu potencial em resultados dentro de campo.

Por enquanto, o sonho de ver a China entre as grandes potências do futebol mundial segue distante.

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