Ásia e Pacífico

China diz que tribunal britânico “viola lei internacional” ao ouvir testemunhas de abusos em Xinjiang

Apesar de não ter peso vinculante, o tribunal espera reunir evidências que obriguem uma ação internacional contra Beijing

A China contestou a legitimidade do tribunal popular da Grã-Bretanha que iniciará uma série de audiências sobre os supostos abusos à minoria muçulmana uigur de Xinjiang. O órgão, que não tem vínculo com o governo britânico, ouvirá dezenas de testemunhas a partir de junho, reportou a Associated Press.

“Beijing condena e despreza as audiências”, disse o porta-voz do governo em Xinjiang, Xu Guixiang. “Esta é uma violação total da lei internacional, grave profanação das vítimas de um genocídio real e séria provocação a todos os povos étnicos de Xinjiang”.

As audiências serão presididas pelo advogado Geoffrey Nice, que liderou o processo contra o ex-presidente da Sérvia Slobodan Milosevic no Tribunal Penal Internacional. Embora as conclusões não tenham peso vinculante, os organizadores esperam que o processo apresente evidências que obriguem uma ação internacional sobre Beijing.

China condena tribunal britânico que ouvirá testemunhas sobre supostos abusos em Xinjiang
O porta-voz de Beijing no governo de Xinjiang, Xu Guixiang, em encontro sobre a província na capital regional Urumqi, fevereiro de 2021 (Foto: Divulgação/Embaixada da China na Bélgica/Wang Zhen)

O governo de Joe Biden, nos EUA, foi o primeiro a usar o termo “genocídio” para descrever o tratamento dado à população uigur. Em seguida, Canadá, Reino Unido e Lituânia, mais recentemente, também passaram a usar a designação. A organização Human Rights Watch caracterizou as ações como crimes contra a humanidade.

Denúncias dão conta de que Beijing usa de tortura, esterilização forçada, trabalho obrigatório e maus tratos para realizar uma limpeza étnica e religiosa na minoria muçulmana de raízes turcas.

Contraterrorismo e propaganda

Em novembro, o Museu do Holocausto estimou que um a cada 20 uigures ou cidadãos de minoria étnica já passou pelos campos de forma arbitrária. O governo chinês alega que os campos servem para educação contraterrorismo e treinamento profissional.

As estruturas, que se multiplicaram desde 2017, teriam como objetivo desradicalizar aqueles que são influenciados por propaganda jihadista na região marcada por confrontos contra o domínio chinês.

Ao mesmo tempo que condena a aplicação do tribunal, Beijing intensificou sua campanha de difamação contra ativistas e inflou a propaganda que sugere os benefícios oferecidos pelo país à população uigur.

Dados do think tank Australian Strategic Policy Institute apontam que a mídia estatal chinesa investiu em anúncios com “uigures radiantes e felizes” nas emissoras de rádio e televisão e redes sociais. Há uso de bots e inteligência artificial para criar vídeos – recurso mais difícil de rastrear.