Dos EUA, quirguiz que escapou de Xinjiang relata tortura em campo de detenção

Ovalbek Turdakun, detido por dez meses, teria sido o primeiro cristão a falar sobre o cárcere nos campos da região chinesa
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Ovalbek Turdakun, um quirguiz do Turquistão Oriental, chegou aos Estados Unidos no dia 8 de abril junto da esposa e do filho, após ficar preso por dez meses em um campo de detenção na província de Xinjiang, na China. Segundo o portal The Pathway, ligado à Igreja Batista, Turdakun foi o primeiro cristão a falar sobre o cárcere nos campos da região autônoma, onde há graves denúncias de prisões arbitrárias e abusos diversos contra a comunidade uigur.

Em uma entrevista coletiva concedida no dia 13 de abril, em Washington, o ex-detento relatou que foi torturado e obrigado a tomar injeções. Segundo ele, alguns apenados sofreram perda auditiva e tiveram fluidos vazando de seus ouvidos após essas aplicações. Ele explicou que foi transferido do centro de reeducação, como é chamado o local pelo governo chinês, para prisão domiciliar em dezembro de 2018, onde permaneceu sob custódia por mais oito meses.

Ovalbek contou que ele e outros presos foram torturado nas chamadas “cadeiras de tigre”, dispositivos nos quais os prisioneiros são frequentemente mantidos em posições dolorosas por horas ou dias. “Éramos eletrocutados se tentássemos mudar de posição”, revelou.

Ovalbek Turdakun durante coletiva de imprensa nos EUA (Foto: East Turkistan Government in Exile/Reprodução Twitter)

Turdakun, pertencente ao grupo étnico turcomano, atravessou a fronteira para o Quirguistão com a família em dezembro de 2019. De lá, ele recebeu ajuda para conseguir chegar aos Estados Unidos. O senador republicano Marco Rubio articulou com o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna a viagem da família Turdakun para os Estados Unidos.

“Agradeço a Deus, que trouxe a mim e minha família em segurança”, disse Turdakun aos repórteres, com a ajuda de um intérprete. “E agradeço ao governo americano”, acrescentou.

Os campos despertaram a atenção da comunidade internacional depois que detentos fizeram denúncias de abusos contra comunidades étnicas da região. A maioria chinesa han vê com desconfiança essa população, que é muçulmana e tem raízes culturais na Ásia Central.

Perseguição religiosa

Segundo Chelsea Sobolik, diretora de políticas públicas da Comissão de Ética Batista do Sul e Liberdade Religiosa (ERLC), o Partido Comunista Chinês (PCC) trava uma guerra “hedionda e sistemática” contra cristãos, uigures e outras minorias étnicas e religiosas.

“Ovalbek é o primeiro cristão detido que conseguiu fugir de Xinjiang e apresentar publicamente sua experiência, corajosamente esclarecendo o genocídio cometido pelo PCC”, observou Chelsea à Baptist Press, acrescentando que “cristãos de todo o mundo devem continuar a se manifestar diante dessa atrocidade”.

Na opinião de Rodney Dixon, um advogado britânico especializado em direito internacional presente na coletiva de imprensa, Ovalbek “será vital para fornecer mais informações privilegiadas em primeira mão sobre o que está acontecendo na China e nos países vizinhos”.

A equipe jurídica de Dixon instou o Tribunal Penal Internacional (TPI) a investigar o Tadjiquistão, que faz fronteira com Xinjiang, sobre o desaparecimento no país de muitos uigures, aparentemente enviados de volta à China. “Um relatório será apresentado em breve solicitando uma investigação e um processo contra Beijing”, disse ele.

Por que isso importa?

A comunidade uigur é uma minoria muçulmana de raízes turcas que habita a região autônoma de Xinjiang, no noroeste da China. A província faz fronteira com países da Ásia Central, com quem divide raízes étnicas e linguísticas.

Os uigures, cerca de 11 milhões, enfrentam discriminação da sociedade e do governo chinês e são vistos com desconfiança pela maioria han, que responde por 92% dos chineses. Denúncias dão conta de que Beijing usa de tortura, esterilização forçada, trabalho obrigatório e maus tratos para realizar uma limpeza étnica e religiosa em Xinjiang.

Estimativas apontam que um em cada 20 uigures ou cidadãos de minoria étnica já passou por campos de detenção de forma arbitrária desde 2014.

O governo de Joe Biden, nos EUA, foi o primeiro a usar o termo “genocídio” para descrever as ações da China em relação aos uigures. Em seguida, Reino Unido e Canadá também passaram a usar a designação, e mais recentemente a Lituânia se juntou ao grupo.

A China nega as acusações de que comete abusos em Xinjiang e diz que as ações do governo na região têm como finalidade a educação contraterrorismo, a fim de conter movimentos separatistas e combater grupos extremistas religiosos que eventualmente venham a planejar ataques terroristas no país. .

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, afirma que o trabalho forçado uigur é “a maior mentira do século”. “Os Estados Unidos tanto criam mentiras quanto tomam ações flagrantes com base em suas mentiras para violar as regras do comércio internacional e os princípios da economia de mercado”, disse ele.

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