Taleban do Paquistão encerra cessar-fogo e acusa governo de não cumprir promessas

Em meio à aproximação entre Islamabad e os extremistas, um violento episódio de intolerância religiosa foi registrado na cidade de Sialkot
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Chegou ao fim o cessar-fogo de cerca de um mês acordado entre o Tehrik-e Taliban Pakistan (TTP), popularmente conhecido como Taleban do Paquistão, e o governo paquistanês. Os extremistas acusam Islamabad de não cumprir as promessas feitas antes do acordo, entre elas a libertação de prisioneiros e a formação de um comitê de negociações. As informações são da agência Reuters.

O acordo estava em vigor desde o dia 9 de novembro, com a expectativa de que fosse ampliado além dos 30 dias inicialmente estabelecidos. À época em que o cessar-fogo foi estabelecido, o ministro da Informação paquistanês, Fawad Chaudhry, confirmou a influência do Taleban do Afeganistão para que o acerto fosse possível, embora os dois grupos homônimos não sejam associados.

O primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan (Foto: Remy Steinegger/Fórum Econômico Mundial)

Ao justificar o fim do acordo, o TTP alegou que o governo não libertou os mais de cem prisioneiros prometidos e não escalou uma equipe governamental para as negociações. O grupo também afirma que as forças de segurança realizaram operações de combate aos jihadistas durante o cessar-fogo, o que contraria o termos.

“Agora, deixe o povo paquistanês decidir se é o TTP ou o exército e as instituições do Paquistão que não estão cumprindo os acordos”, disse o Taleban paquistanês em comunicado. “Nessas circunstâncias, não é possível seguir adiante com o cessar-fogo”, disse o órgão.

As ações do TTP, sobretudo atentados a bomba e ataques armados, levaram à morte de dezenas de milhares de pessoas no Paquistão, entre civis e agentes das forças de segurança nacionais. O grupo é acusado por algumas autoridades de ter participado do assassinato do líder do Partido Popular do Paquistão (PPP) e ex-primeiro-ministro Benazir Bhutto, em 2007.

Intolerância religiosa

Um episódio de violência associada à intolerância religiosa foi registrado na cidade de Sialkot, província de Punjabe, nordeste do Paquistão, na semana passada. O cingalês Priyantha Diyawadana, gestor de uma fábrica local, foi linchado até a morte e depois teve seu corpo queimado no meio da rua, sob a acusação de blasfêmia.

Budista, Diyawadana teria removido das paredes da fábrica em que trabalhava adesivos com passagens do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, e o nome do profeta Maomé. Enquanto o homem era agredido, imagens que circulam nas redes sociais mostram os agressores gritando slogans associados ao TTP e ao partido político TLP, da extrema direita islâmica paquistanesa, segundo o site The Observer.

A polícia abriu uma investigação e prendeu 118 acusados de participação no crime. Eles foram enquadrados na lei antiterrorismo do país. O primeiro-ministro Imran Khan fez um pronunciamento no qual ofereceu condolências à família de Diyawadana.

Especialistas associam o comportamento da população ao fato de o governo ter se aproximado do TTP, o que pode transmitir a mensagem de que o extremismo é aceito no país.

Por que isso importa?

Embora sigam os mesmos preceitos fundamentalistas e sejam ambos grupos sunitas, o Taleban afegão e o homônimo paquistanês são entidades separadas. Porém, o governo do Paquistão aproveitou sua proximidade com os talibãs do Afeganistão para iniciar as negociações com o TTP.

Depois que o Taleban conquistou Cabul, consequentemente assumindo o governo do Afeganistão, o premiê paquistanês declarou que o grupo estava “quebrando as correntes da escravidão”, em vídeo reproduzido pelo jornal britânico The Independent.

Segundo o think tank norte-americano CFR (Conselho de Relações Estrangeiras, da sigla em inglês), uma forte razão para a proximidade entre Paquistão e Taleban é a questão territorial. “As autoridades paquistanesas estão preocupadas com a fronteira com o Afeganistão e acreditam que um governo do Taleban poderia aliviar suas preocupações”, diz a entidade, que destaca a disputa histórica entre os paquistaneses e a etnia pashtun do Afeganistão. “O governo do Paquistão acredita que a ideologia do Taleban enfatiza o Islamismo em vez da identidade pashtun”.

Nos EUA, são comuns as acusações de que o governo paquistanês não apenas dialoga com os talibãs afegãos, mas também os apoia e dá suporte. Segundo especialistas, o ISI, serviço de inteligência paquistanês, apoiou grupos militantes na região da Caxemira, disputada entre Paquistão e Índia. Entre eles, grupos que hoje figuram na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado norte-americano.

O CFR ilustra essa desconfiança com uma entrevista do então secretário de Defesa dos Estados Unidos Robert Gates, concedida ao programa 60 Minutes, da rede CBS, em maio de 2009. Na ocasião, ele disse que “até certo ponto, eles jogam dos dois lados”, referindo-se ao ISI.

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