Xi culpa os EUA por tensão, enquanto Taiwan acusa a China de planejar a ‘eliminação’ da ilha

Presidente da China diz que uma invasão militar comprometeria todo o avanço conquistado pelo país nos últimos anos

A tensão entre China e Taiwan, com a possibilidade de uma ação militar para anexação formal da ilha por Beijing, foi abordada nos últimos dias pelos presidentes das duas nações. Enquanto Xi Jinping culpou os EUA pelo clima quente no Estreito, Lai Ching-te afirmou que é o regime comunista que incentiva a beligerância na região.

Lai, que governa Taiwan há pouco menos de um mês, disse no último domingo (16) que tentou abrir negociações com Beijing para encerrar as tensão entre os dois governos, mas não teve retorno. Diante de tal postura, avaliou que Beijing está decidida a “anexar e eliminar” a ilha, sendo esta a grande causa nacional, segundo a agência Al Jazeera.

“O maior desafio é enfrentar a poderosa ascensão da China, [que está] destruindo o status quo no Estreito de Taiwan e considera a anexação de Taiwan e a eliminação da República da China como a grande causa rejuvenescedora do seu povo”, disse ele, usando o nome formal da ilha.

Lai Ching-te, presidente de Taiwan (Foto: Flickr/governo de Taiwan)

O presidente se manifestou diante das Forças Armadas taiwanesas, convocando os militares a defenderem a autonomia da ilha. “A missão mais elevada é assumir corajosamente a pesada responsabilidade e a grande tarefa de proteger Taiwan e salvaguardar a paz e a estabilidade no Estreito de Taiwan”, afirmou.

As palavras de Lai contrariam o discurso oficial da China, que indica a anexação pacífica como prioridade. Tal posicionamento teria sido reforçado pelo presidente Xi Jinping em conversa com a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, cujo conteúdo foi revelado pelo jornal Financial Times.

Segundo fontes familiarizadas com o teor do diálogo, Xi afirmou à autoridade europeia que os EUA estão tentando induzir a China a invadir a ilha, mas ele não morderá a isca. A mesma afirmação teria sido feita pelo líder do Partido Comunista Chinês (PCC) a autoridades chinesas antes do encontro com von der Leyen.

O presidente chinês teria argumentando que a guerra traria apenas prejuízos a Beijing, destruindo as conquistas das últimas décadas e comprometendo a caminhada do país rumo ao “grande rejuvenescimento” programado por ele para ser concluído até 2049.

A posição de Xi é defendida oficialmente por Beijing, que coloca a invasão como uma alternativa extrema. Algo que o próprio presidente afirmou no 20º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC), em outubro de 2022.

“Continuaremos a lutar pela reunificação pacífica”, disse ele na ocasião. “Mas nunca prometeremos renunciar ao uso da força. E nos reservamos a opção de tomar todas as medidas necessárias”.

Tal posicionamento foi endossado inclusive por autoridades militares norte-americanas, como o general Charles Brown Jr., chefe do Estado-Maior das Forças Armadas norte-americanas.

“Eu acho que Xi Jinping não quer realmente tomar Taiwan à força. Ele tentará usar outras maneiras de fazer isso”, disse o oficial em novembro do ano passado, segundo a rede Bloomberg. Ele acrescentou que Beijing tem uma série de alternativas para “exercer pressão crescente sobre Taiwan, seja militarmente, diplomaticamente, economicamente.”

A principal alternativa à invasão seria impor um bloqueio à ilha, impedida assim de ter acesso a tudo de que necessita para atender às necessidades de seus cidadãos. Isso inclusive jogaria o ônus de desencadear um conflito para o Ocidente, vez que o plano poderia ser colocado em prática sem que necessariamente as armas do ELP fossem usadas.

Por que isso importa?

Taiwan é uma questão territorial sensível para a China, e a queda de braço entre Beijing e o Ocidente por conta da pretensa autonomia da ilha gera um ambiente tenso, com a ameaça crescente de uma invasão pelas forças armadas chinesas a fim de anexar formalmente o território taiwanês.

Nações estrangeiras que tratem a ilha como nação autônoma estão, no entendimento de Beijing, em desacordo com o princípio “Uma Só China“, que também vê Hong Kong como parte da nação chinesa.

Embora não tenha relações diplomáticas formais com Taiwan, assim como a maioria dos demais países, os EUA são o mais importante financiador internacional e principal parceiro militar de Taipé. Tais circunstâncias levaram as relações entre Beijing e Washington a seu pior momento desde 1979, quando os dois países reataram os laços diplomáticos.

A China, em resposta à aproximação entre o rival e a ilha, endureceu a retórica e tem adotado uma postura belicista na tentativa de controlar a situação. Jatos militares chineses passaram a realizar exercícios militares nas regiões limítrofes com Taiwan e habitualmente invadem o espaço aéreo taiwanês, deixando claro que Beijing não aceitará a independência formal do território “sem uma guerra“.

A crise ganhou contornos mais dramáticos após a visita da presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, à ilha em 2022. Foi a primeira pessoa ocupante do cargo a viajar para Taiwan em 25 anos, atitude que mexeu com os brio de Beijing. Em resposta, o exército da China realizou um de seus maiores exercícios militares no entorno da ilha, com tiros reais e testes de mísseis em seis áreas diferentes.

O treinamento serviu como um bloqueio eficaz, impedindo tanto o transporte marítimo quanto a aviação no entorno da ilha. Assim, voos comerciais tiveram que ser cancelados, e embarcações foram impedidas de navegar por conta da presença militar chinesa.

Desde então, aumentou consideravelmente a expectativa global por uma invasão chinesa. Para alguns especialistas, caso do secretário de Defesa dos EUA Lloyd Austin, o ataque “não é iminente“. Entretanto, o secretário de Estado Antony Blinken afirmou em outubro de 2022 “que Beijing está determinada a buscar a reunificação em um cronograma muito mais rápido”.

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