Apesar da ascensão da China, yuan está longe da hegemonia monetária, dizem especialistas

Hipóteses e questionamentos sobre a possível hegemonia global do yuan em meio ao embate entre EUA e China
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*por Julia Possa

Há um longo caminho a ser percorrido caso o yuan realmente venha a substituir o dólar como moeda hegemônica no cenário internacional. A raiz da transformação está no avanço geopolítico que a China precisa construir no mundo, e não apenas no volume de transações com a moeda chinesa. É o que apontam os especialistas ouvidos por A Referência, em meio à aposta de investidores de que isso ocorrerá mais cedo do que se imagina.

Beijing já deu os primeiros passos neste percurso. Ainda em 2015, o FMI (Fundo Monetário Internacional) concedeu ao yuan – ou renminbi – o status de moeda de reserva. Menos de um ano depois, adicionou a cifra chinesa à cesta de Direitos de Saque Especiais. No grupo seleto estão dólar, euro, iene japonês e libra esterlina.

Em seguida, Beijing atrelou o yuan ao dólar dos EUA por meio de um “par administrado”. Em uma âncora flutuante com tendência de queda desde 2015, a moeda tornou as exportações chinesas mais competitivas em relação ao preço do dólar em todo o mundo.

Apesar da ascensão da China, yuan está longe da hegemonia monetária, dizem especialistas
Notas de yuan e dólar, novembro de 2019 (Foto: Divulgação/Unsplash/ Eric Prouzet)

As exportações de baixo custo aos EUA fizeram com que a participação da China no comércio internacional disparasse, o que alavancou o PIB (Produto Interno Bruto) chinês para um aumento de até 10%. A medida, que marca o início dos atritos entre Beijing e Washington, também inaugurou a popularidade do yuan.

Então em 12º lugar, a moeda tornou-se a quarta mais usada no mundo enquanto bancos centrais passaram a separar um lugar para a moeda chinesa em suas reservas. Enquanto isso, o comércio de dólares americanos caiu, como apontou o site norte-americano The Balance, em maio.

O ligeiro aquecimento fez com que investidores bilionários, como Ray Dalio, anunciassem o yuan chinês como a próxima moeda de reserva global. “Acontecerá mais cedo do que esperamos”, disse ele à emissora norte-americana CNBC.

Entre a previsão e a especulação, economistas preferem uma análise de curto e médio prazo. E o consumo inexpressivo do yuan no mercado global colabora para dar o tom cético à narrativa de hegemonia da moeda chinesa.

O que faz a hegemonia

Um conflito bélico de alcance global, a economia da Europa em colapso e um importante arsenal em venda: eis a receita do que alavancou os EUA e, em consequência, o dólar, para a hegemonia após o fim da Segunda Guerra Mundial.

A ascensão norte-americana não começou somente pela economia, mas por um projeto que, ao instaurar o american dream, alavancou os EUA, seus costumes e sua filosofia social ao status de referência global. Não foi o nível de comércio que beneficiou Washington ante seus parceiros mundiais, mas a confiança na economia norte-americana.

O que conta, nesse caso, é a estabilidade da política monetária concebida através das instituições do país. A forte dependência do yuan para com o Partido Comunista Chinês tende a prejudicar a confiança na moeda caso se torne mais internacionalizada, disse André Perfeito, economista-chefe da corretora de valores Necton.

Os presidentes da China, Xi Jinping, e dos EUA, Donald Trump, em encontro em Beijing em 2017 (Foto: Divulgação/Casa Branca)

Assim, a construção hegemônica de uma moeda está mais ligada a esse processo – de Hollywood à força militar – que à dominação do comércio global. “Para haver hegemonia, é essencial que as transações, os contratos e todas as negociações a nível global sejam denominadas naquela moeda. Ainda não vemos esse salto”, apontou.

Outro indício sobre o longo caminho até a hegemonia do yuan é a crescente reserva cambial da China em dólar. Beijing possui mais de US$ 3,2 trilhões em reserva – a maior cifra desde abril de 2016, conforme dados do Banco do Povo da China acessados pela Reuters.

A interdependência é inegável, assim como os obstáculos que a China ainda tem pela frente até alcançar a hegemonia monetária. O principal é o aspecto geopolítico, destacou o professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Pedro Brites.

“Há muita resistência em relação ao crescimento chinês, não apenas nos EUA”, afirma. “É difícil, então, que a China resista sozinha. Mas é claro que isso não significa que ela não tenha intenção de aumentar a participação – mas talvez só como uma tentativa de reduzir sua dependência”.

O que a China quer?

As narrativas da China não explicitam seu interesse na hegemonia global – ou, pelo menos, não é essa a terminologia usada pelo chineses, apontou o secretário-geral do Centro de Estudos Globais da UnB (Universidade de Brasília) e diretor de pesquisa da rede Observa China Paulo Menechelli.

“Mesmo que a China se torne a maior economia do mundo em valores, ela não sinaliza o interesse de impor sua cultura a outros países. Ela não fala que quer ser uma superpotência global”, sinalizou Menechelli. Os inúmeros desafios internos do país asiático vão ao encontro dessa narrativa. Apesar de ser uma economia pujante, a China reconhece suas mazelas. “A China ainda se apresenta como sul global ao reforçar que tem como marca a superação da pobreza extrema e muitas questões de países em desenvolvimento”, disse Menechelli.

Casal de mendigos chineses na cidade chinesa de Guangzhou, outubro de 2006 (Foto: Divulgação/Taro Taylor)

Estrada tortuosa

Antes de alcançar o posto de moeda global, o yuan deve ser bem-sucedido como um moeda de reserva. Assim, seria usado para precificar mais contratos internacionais, o que garantiria a Beijing certa liberdade em relação ao valor do dólar.

Enquanto isso, exportadores chineses teriam custos de empréstimos mais baixos e a China alcançaria um peso econômico maior em relação aos EUA, movimento que poderia forçar Washington a apoiar algumas das reformas econômicas de Xi Jinping.

Para isso, os líderes chineses já começam a facilitar a negociação do yuan nos mercados de câmbio estrangeiros. O ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg está criando um centro de comércio de renminbi nos EUA. O grupo, que inclui ex-secretários do Tesouro, como Hank Paulson e Tim Geithner, quer reduzir os custos para empresas norte-americanas negociarem com a China.

Mas o domínio da moeda nas transações globais ainda tem muito a percorrer. Conforme a rede de serviços financeiros Swift, o renminbi é usado em menos de 3% dos pagamentos internacionais em 2021, enquanto a participação do dólar chega a 50%.

“Pode ser que aconteça em 100 anos, mas no curto e médio prazo é difícil de conceber essa ideia”, pontuou Simone Pasianotto, economista-chefe da Reag Investimentos. Assim como a corretora de Perfeito, nenhuma das financeiras realiza transações em yuan. Até o momento.

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