Ferreiros medievais na Ucrânia produzem peças para ajudar na resistência à Rússia

Ouriços para o bloqueio do trânsito e barreiras antitanques são algumas das demandas saídas da metalurgia ancestral
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Diante da invasão em larga escala no país, uma oficina na Ucrânia especializada em metalurgia medieval alterou sua rotina de produção. A Art of Steel, sediada na cidade de Rivne, próxima à fronteira com Belarus, paralisou a manufatura de peças como espadas, elmos e armaduras destinadas a um público ligado principalmente ao cosplay. A demanda agora é outra: ouriços, um tipo de obstáculo anticarro que auxilia as forças ucranianas contra os agressores russos. As informações são da revista Vice.

Um vídeo postado na page da oficina no Facebook no dia 28 de fevereiro revelou o novo “carro-chefe” do estabelecimento: pontas de aço ligadas por uma longa corrente, usadas para bloquear pontos de estrangulamento na cidade. A mensagem do post é convidativa à resistência contra o exército de Vladimir Putin. “Ajudando a proteger a cidade. Quem sabe soldar faz ‘ouriços’ para postos de controle. Em breve haverá um número consideravelmente maior deles”.

Ouriços auxiliam forças ucranianas como barreira nas estradas (Foto: Art of Steel/Reprodução Facebook)

Na capital, Kiev, principal alvo das ambições russas no conflito, metalúrgicos estão trabalhando em versões maiores dos espinhos do ouriço. Reportagem da agência Reuters mostrou que uma das fábricas especializadas tem produção diária de 110 peças. “Temos demandas de muitos lugares para esses tipos de dispositivos de bloqueio, e nós os entregamos onde quer que sejam necessários. Subcontratados e amigos estão fornecendo transporte para os produtos e o material”, relata Oleksandr Bodyuk, vice-diretor de uma empresa siderúrgica.

Os armeiros ucranianos têm grande prestígio na comunidade de ferreiros amadores pelo esmero de seu trabalho. Quem já participou de uma convenção medieval na Europa e viu alguém trajando vestes de um cavaleiro, como um peitoral de aço, por exemplo, possivelmente estava diante de um artefato saído de uma forja do país do Leste Europeu.

De acordo com Jordan Newman, um ferreiro amador e geólogo do Estado do Texas, nos EUA, a Ucrânia tem propriedades minerais únicas, características que fazem do país um lugar perfeito para as ancestrais técnicas de fundição.

“O país tem a sorte de ter rochas sedimentares metamorfoseadas pré-cambrianas ricas em minério de ferro que são fáceis de refinar”, disse Newman. “É principalmente hematita em quartzo. Então, quando você o funde, acaba com a escória [subproduto da fundição de minério para purificar metais] que é fácil de remover e não contamina sua flor. Se você fosse um ferreiro no início da Idade do Ferro, quando a metalurgia era tentativa e erro, isso teria sido uma bênção”, avalia.

Resistência

Ferreiros de todas as partes da ex-república soviética estão usando suas forjas para auxiliar nos esforços de guerra. Além dos ouriços, eles também estão entregando barreiras antitanque e até fogões para aquecer os militares em meio ao rigoroso inverno europeu.

“Todos os mestres que sabem trabalhar com metal estão tentando ajudar o exército de alguma forma. Essa assistência também é necessária para os postos de controle que foram criados nas estradas de todas as cidades. A Rússia não esperava tal resistência”, relatou um ferreiro ao jornal britânico Telegraph, sob condição de anonimato.

Por que isso importa?

A escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia, que culminou com a efetiva invasão russa ao país vizinho no dia 24 de fevereiro, remete à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014, e à guerra em Donbass, que começou naquele mesmo ano e se estende até hoje.

O conflito armado no leste da Ucrânia opõe o governo central às forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, que formam a região de Donbass e foram oficialmente reconhecidas como territórios independentes por Moscou. Foi o suporte aos separatistas que Putin usou como argumento para justificar a invasão, classificada por ele como uma “operação militar especial”.

“Tomei a decisão de uma operação militar especial”, disse Putin pouco depois das 6h de Moscou (0h de Brasília) de 24 de fevereiro, de acordo com o site independente The Moscow Times. Cerca de 30 minutos depois, as primeira explosões foram ouvidas em Kiev, capital ucraniana, e logo em seguida em Mariupol, no leste do país, segundo a agência AFP.

Desde o início da ofensiva, as forças da Rússia caminham para tentar dominar Kiev, que tem sido alvo de constantes bombardeios. O governo da Ucrânia e as nações ocidentais acusam Moscou de atacar inclusive alvos civis, como hospitais e escolas, o que pode ser caracterizado como crime de guerra ou contra a humanidade.

Fora do campo de batalha, o cenário é desfavorável à Rússia, que tem sido alvo de todo tipo de sanções. Além das esperadas punições financeiras impostas pelas principais potencias globais, que já começaram a sufocar a economia russa, o país tem se tornado um pária global. Representantes russos têm sido proibidos de participar de grandes eventos em setores como esportecinema e música.

De acordo com o presidente dos EUA, Joe Biden, as punições tendem a aumentar o isolamento da Rússia no mundo. “Ele não tem ideia do que está por vir”, disse o líder norte-americano, referindo-se ao presidente russo Vladimir Putin. “Putin está agora mais isolado do mundo do que jamais esteve”.


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