Europa

Ucrânia contesta acordo da Hungria com empresa russa e gera crise diplomática

Contrato válido por 15 anos prevê a importação de gás russo por linhas que contornam a Ucrânia, privada, assim, de lucrativas taxas de trânsito

Um contrato de fornecimento de gás natural assinado entre a Hungria e a empresa russa Gazprom, na segunda-feira (27), levou a fortes protestos da Ucrânia e gerou uma crise diplomática entre Kiev e Budapeste. O governo ucraniano, em nota emitida pelo Ministério das Relações Exteriores, se disse “surpreso e desapontado” com a decisão húngara.

O acordo é válido por 15 anos e “envolve a importação anual de 4,5 bilhões de metros cúbicos de gás russo para a Hungria por meio de linhas que contornam a Ucrânia, privando-a de lucrativas taxas de trânsito”, diz o governo ucraniano. “Consideramos que se trata de uma decisão puramente política e economicamente pouco razoável tomada a favor do Kremlin e em detrimento dos interesses nacionais da Ucrânia e das relações ucraniano-húngaras”.

Sede da Gazprom, empresa russa do setor de petróleo e gás controlada pelo Estado, em Moscou, na Rússia; registro de 2016 (Foto: Wikimedia Commons)

O documento sugere, ainda, que o acordo beneficia exclusivamente Moscou, e mesmo Budapeste terá prejuízo. “É ainda mais lucrativo para a Hungria receber gás em trânsito através do extenso sistema de transmissão de gás da Ucrânia, que permite o fornecimento ininterrupto de gás pelo caminho mais curto possível aos países europeus”.

Agora, a Ucrânia diz que vai avaliar a questão cuidadosamente, a fim de adotar eventuais medidas posteriores. “A parte ucraniana também irá dirigir-se à Comissão Europeia para avaliar a conformidade do novo acordo húngaro-russo sobre o gás, com base na legislação europeia em matéria de energia”.

Por que isso importa?

A Europa enfrenta enorme crise no setor de gás, cujos preços subiram a níveis preocupantes. Yuriy Vitrenko, CEO da Naftogaz, maior empresa ucraniana de petróleo e gás, acusa a Gazprom de deliberadamente reter o gás que poderia ir para a Europa, além de bloquear o acesso ao sistema de transporte de gás de outras empresas russas.

Vitrenko acusa a Gazprom de manipular a crise energética de olho na inauguração do megagasoduto Nord Stream 2, que liga Rússia e Alemanha. A obra, concluída no início deste mês, integra a estrutura do Nord Stream 1 e adicionará mais 55 bilhões de metros cúbicos de suprimento de gás por ano, ou cerca de 11% do consumo total anual da União Europeia (UE).

Obra do megagasoduto foi concluída no início deste mês (Foto: Pjotr Mahhonin/Wikimedia Commons)

Críticos sustentam que o novo gasoduto não é compatível com as metas climáticas europeias, acentua a dependência das exportações russas de energia e potencialmente aumentará a influência exercida pelo presidente Vladimir Putin na região.

Já a Rússia e Alemanha defendem a iniciativa como “puramente comercial”, uma forma de atender a crescente demanda por gás no continente.

Na semana passada, a Agência Internacional de Energia (IEA, da sigla em inglês) pediu à Rússia que envie mais gás à Europa, de forma a aliviar a escassez do produto, problema que já fez os preços dispararem mais de 250% desde janeiro.

O posicionamento da IEA foi interpretado como uma incomum repreensão ao Kremlin e corrobora a narrativa de que Moscou teria responsabilidade na crise energética no continente.