Europa

UE premia Alexei Navalny e reforça posição de antagonismo em relação à Rússia

Parlamento Europeu concede Prêmio Sakharov ao oposicionista e destaca a luta incansável dele contra a “corrupção do regime de Vladimir Putin”

O oposicionista russo Alexei Navalny, atualmente preso em Moscou, foi anunciado na quarta-feira (20) como vencedor do Prêmio Sakharov, concedido anualmente pelo Parlamento Europeu (PE). A vitória, além de amplificar globalmente a voz do ativista no combate ao autoritarismo e à corrupção no governo de Vladimir Putin, reforça o posicionamento antagônico da União Europeia (UE) em relação a Moscou.

O italiano David Sassoli, presidente do PE, evidenciou a posição do bloco ao parabenizar o vencedor em sua conta no Twitter. “Alexei @navalny é o vencedor do #SakharovPrize deste ano. Ele lutou incansavelmente contra a corrupção do regime de Vladimir Putin. Isso custou a ele sua liberdade e quase sua vida. O prêmio de hoje reconhece sua imensa bravura, e reiteramos nosso apelo para sua libertação imediata”.

Para o ativista Marat Gelman, a vitória de Navalny vai reverberar mais no exterior do que na Rússia, devido à censura doméstica que o Kremlin exerce na internet. “Isso não mudará as opiniões sobre Navalny [na Rússia]”, disse ele à organização de mídia estatal norte-americana Radio Free Europe. “As pessoas que assistem à televisão [estatal russa] receberão mais uma afirmação de que Navalny é um canalha, um agente americano. O balanço de forças não mudará”.

Porém, Alina Polyakova, presidente do Centro de Análise de Política Europeia, com sede em Washington, entende que o prêmio fortalece a imagem de Navalny no exterior, e essa é uma importante vitória. “É um forte reconhecimento de que Alexei Navalny não é um extremista ou terrorista, mas é, na verdade, um lutador pela liberdade,” disse. Segundo ela, agora ele se torna uma “figura global, não apenas uma figura russa”, e é visto “sob uma luz totalmente diferente”.

UE premia Alexei Navalny e reforça posição de antagonismo em relação à Rússia
O político russo, Alexei Navalny, em manifestação contra o Kremlin em Moscou, junho de 2013 (Foto: Divulgação/Bogomolov.PL)

Dissidente soviético

Curiosamente, o nome do prêmio remete a um dissidente político soviético, o físico Andrei Sakharov. Conforme relatório publicado pelo PE quando da nomeação de Navalny, o objetivo é homenagear “indivíduos e organizações excepcionais que defendem os direitos humanos e as liberdades fundamentais”.

No panteão dos vencedores, o russo fará companhia a figuras como o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e paquistanesa Malala Yousafzai, ativista pelos direitos das mulheres e pela educação feminina. Ambos ganharam também o Nobel da Paz.

A edição 2021 do Prêmio Sakharov tinha mais quatro concorrentes. Entre eles um grupo de 11 mulheres afegãs lembradas por sua luta por direitos humanos e igualdade no país dominado pelo Taleban. Na nomeação, o PE recorda a passagem anterior dos talibãs pelo poder, entre 1996 e 2001, quando “mulheres viviam casamento forçado, alta mortalidade materna, baixa alfabetização, testes de virgindade forçada e não podiam viajar sem um homem”.

Outra candidata era Jeanine Áñez, política boliviana e “símbolo da repressão contra dissidentes e da privação do devido processo legal e do Estado de Direito na América Latina”. Já Sultana Khaya é uma ativista e defensora dos direitos humanos da República Árabe Saharaui Democrática, território do Saara Ocidental que é parcialmente reconhecido internacionalmente como nação independente. Por fim, concorria a Global Witness, ONG britânica que investiga abusos ambientais nos setores de gás, petróleo, mineração e madeira.

Por que isso importa?

Navalny ganhou destaque ao organizar manifestações e concorrer a cargos públicos na Rússia. A principal plataforma do oposicionista é o combate à corrupção no governo de Vladimir Putin, em virtude da qual ele uma cobra profunda reforma na estrutura política do país.

Em agosto de 2020, durante viagem à Sibéria, Navalny foi envenenado e passou meses se recuperando em Berlim. Voltou a Moscou em janeiro de 2021 e foi detido ainda no aeroporto. Em fevereiro, foi julgado e condenado a dois anos e meio de prisão por violar uma sentença suspensa de 2014, quando foi acusado de fraude. Promotores alegaram que ele não se apresentou regularmente à polícia em 2020, justamente quando estava em coma pela dose tóxica.

Encarcerado em uma colônia penal de alta segurança, ele chegou a fazer uma greve de fome de 23 dias em abril, para protestar contra a falta de atendimento médico. Em junho de 2021, um tribunal russo proibiu os escritórios regionais de Navalny e sua Fundação Anticorrupção de funcionarem, classificando-as como “extremistas”.

Em agosto, a Justiça russa abriu uma nova acusação criminal contra o oposicionista, o que poderia ampliar a sentença de prisão dele em três anos. Ele foi acusado de “incentivar cidadãos a cometerem atos ilegais”, por meio da Fundação Anticorrupção (FBK) que ele criou. Mais recentemente, em setembro, uma terceira acusação contra, por “extremismo”, ameaça estender o encarceramento por até uma década.

Caso seja condenado em alguma das novas acusações, Navalny será mantido sob custódia no mínimo até o fim da próxima eleição presidencial, em 2024, quando chega ao fim o atual mandato de seis anos de Vladimir Putin no Kremlin.