Guterres alerta sobre os riscos da crise climática para os pequenos Estados insulares

Guterres insta a comunidade internacional a cumprir promessas de financiamento e apoio para evitar a extinção das nações ameaçadas

Conteúdo adaptado de material publicado originalmente pela ONU News

O mundo não deve permitir a perda de um único país ou cultura devido ao aquecimento global ou à continuação de um “mundo financeiro de duas velocidades” onde os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres, disse o chefe da ONU (Organização das Nações Unidas) na segunda-feira (27).

O secretário-geral António Guterres descreveu o futuro dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento (Sids) como um teste para a justiça climática e financeira que o mundo não pode falhar. 

Sids4

Ele esteve na abertura da Quarta Conferência Internacional sobre Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (Sids4) realizada em Antígua e Barbuda, no Caribe, uma nação que entende bem o poder destrutivo das mudanças climáticas após os devastadores furacões Irma e Maria em 2017.

Mais de 20 líderes mundiais e ministros de mais de 100 nações se reuniram com cerca de 4 mil outros participantes – representantes do setor privado, da sociedade civil, do meio acadêmico e da juventude – para tratar de uma série de questões de importância existencial para os 39 Sids.

A conferência, que acontece na Universidade Americana de Antígua até quinta-feira (30), já tem objetivo claro: a Agenda de Antígua e Barbuda para Sids, que define as aspirações de desenvolvimento sustentável de pequenas ilhas vulneráveis na próxima década e o apoio necessário, bem além do prazo de 2030 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Na praia de Cottesloe Beach, em Perth, na Austrália, placas projetam até onde chegará o nível do mar nas próximas duas décadas (Foto: go_greener_oz/Flickr)
Na linha de frente

Guterres disse que, além de sua beleza excepcional, seja nas águas azuis do Caribe, do Pacífico Sul ou do Oceano Índico, esses países também são excepcionalmente vulneráveis. Ele lembra que a posição geográfica os coloca “à mercê do caos climático, do aumento do nível do mar e da degradação da terra.”

Para Guterres, a mudança climática é uma crise existencial para todos, mas os Sids estão na linha de frente. Dependentes de importações e de cadeias de suprimentos complexas, as condições climáticas extremas recordes, a pandemia de Covid-19 que impactou o turismo e as guerras regionais deixaram muitos Sids em águas turbulentas.

O chefe da ONU afirmou que a nova Agenda de Antígua e Barbuda para os Sids (Abas, na sigla em inglês) descreve as etapas para alcançar uma prosperidade resiliente em parceria com a comunidade internacional. Ele recomendou que os Sids façam investimentos ousados e sustentáveis por conta própria, mas lembrou que eles não podem ter sucesso sozinhos. 

Para o secretário-geral, a comunidade internacional tem o dever de apoiá-los, liderada pelos países que têm maior responsabilidade e capacidade de lidar com os desafios. 

Justiça no centro

Guterres ainda ressaltou que o grupo de países insulares são um teste para a justiça climática e a justiça financeira. Ele alerta que, com o limite crítico de 1,5º C no aumento da temperatura já se aproximando rapidamente, “não podemos aceitar o desaparecimento de qualquer país ou cultura sob as ondas crescentes.”

O chefe da ONU afirmou que a ideia de que um Estado insular inteiro possa se tornar um dano colateral para o lucro do setor de combustíveis fósseis ou para a concorrência entre as principais economias é “simplesmente obscena.” Os Sids já lideram há décadas, servindo como a consciência do mundo sobre a crise climática.

Guterres explicou que os Sids precisam de justiça financeira, pedindo aos líderes em Antígua que insistam para que os países desenvolvidos cumpram as promessas de dobrar o financiamento da adaptação.

“Vocês também têm todo o direito de exigir contribuições novas e significativas para o Fundo de Perdas e Danos. Alguns de seus países sofreram danos no valor de mais da metade de seu PIB da noite para o dia, em ciclones e tempestades”, disse Guterres. 

“Mas estamos em um mundo financeiro de duas velocidades. Para os ricos, empréstimos baratos e dinheiro fácil. Mas a maioria global, os países que precisam de financiamento para o desenvolvimento, está pagando custos altíssimos para tomar dinheiro emprestado”, acrescentou.

Mudando a maré

O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais e secretário-geral da Conferência Sids4, LI Junhua, disse que o compromisso acordado com a Agenda de Antígua e Barbuda conta a história dos Sids.

“Mas o mais importante é que ele mostra à comunidade global como podemos, juntos, apoiá-los. Ele oferece uma oportunidade de virar a maré e colocar os Sids no caminho para alcançar uma prosperidade resiliente”, explicou.

Ele disse que a conferência será “um catalisador para novas e revigoradas parcerias, financiamentos e ações ambiciosas para apoiar essas extraordinárias nações insulares a atingirem seu potencial”. E pediu a todos na sala que realizem juntos o ambicioso programa Abas.

Não limite o potencial dos Sids

O presidente da Assembleia Geral, Dennis Francis, que é natural do vizinho Estado caribenho de Trinidad e Tobago, disse que a tão esperada conferência Sids4 “oferece uma plataforma poderosa e única na década” para ação, de acordo com o programa de ação Abas.

“Se não realizarmos uma reforma substancial da estrutura financeira internacional e da arquitetura multilateral e sua governança, os países em desenvolvimento, incluindo os Sids, não poderão liberar todo o seu potencial para mobilizar os recursos tão necessários para alcançar a Agenda 2030 e seus ODS”, alertou.

Ação imediata

O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, disse que as vulnerabilidades dos Sids os colocam em grande desvantagem. A implacável crise climática prejudicou gravemente os esforços para atingir os ODSs, tornando a busca por soluções mais crítica, disse ele. 

Este ano foi o mais quente da história em praticamente todos os lugares, lembrou, ressaltando a urgência de nossa situação: “Ignorar isso é apostar em nosso futuro coletivo. Continuar com os negócios como de costume não é apenas negligência, é uma escolha ativa que convida ao desastre. Essa indiferença repercutirá de forma desastrosa, afetando todas as nações, todas as comunidades e todos os indivíduos do planeta.”

É preciso acabar com a ideia de colocar os lucros acima da sustentabilidade, disse ele, pedindo que um imposto global sobre o carbono seja cobrado de empresas petrolíferas extremamente lucrativas. “Não agir ditará o destino dos Sids. É imperativo que ajamos agora, não amanhã, mas hoje, com convicção e com determinação inabalável.”

Juventude

A sessão de abertura terminou com um apelo do jovem Lutrell John, que foi um dos delegados da Cúpula de Ação Global para Crianças e Jovens de Sids no fim de semana.

O jovem residente de Antígua e Barbuda disse aos delegados que sua geração quer um futuro melhor e mais seguro. Ele relembrou a “devastação que mudou sua vida” do furacão Irma em 2017 e está cada vez mais consciente do agravamento da crise climática.

“Amo meu país, ele é lindo, é meu lar, mas temo pelo meu futuro”, disse ele. Se realmente quisermos um desenvolvimento sustentável, as vozes das crianças devem estar no centro da conversa. “Vocês precisam nos ouvir e respeitar nossas ideias e nossas soluções”, disse ele.

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