Rússia recua no Mali: forças deixam Kidal após ofensiva de separatistas e jihadistas

Retirada do Afrika Korps ocorre após ataques coordenados em várias regiões; separatistas do FLA dizem controlar cidade estratégica no norte do país

A retirada de forças russas da cidade de Kidal, no norte do Mali, marca um novo capítulo na instabilidade que atinge o país africano. Após um fim de semana de ataques coordenados por grupos separatistas e jihadistas, o Afrika Korps, força ligada ao Ministério da Defesa da Rússia, confirmou que deixou a região ao lado de tropas malianas. As informações são da BBC.

A informação foi divulgada por meio de publicações nas redes sociais do próprio grupo, que afirmou ter “deixado a localidade”. Pouco depois, a Frente de Libertação de Azawad (FLA), movimento separatista que atua no norte do Mali, declarou ter assumido o controle da cidade e classificou Kidal como “agora livre”.

A cidade tem importância simbólica e estratégica. Por mais de uma década, Kidal foi considerada a capital informal do movimento separatista tuaregue, até ser retomada pelo exército malinês com apoio de forças russas no final de 2023.

Soldados malianos em Bamako (Foto: WikiCommons)
Ataques simultâneos expõem fragilidade do governo

A retirada ocorre após uma escalada de violência em diferentes regiões do Mali. No sábado, foram registrados ataques simultâneos em cidades do norte e centro do país, incluindo Gao, Mopti, Sevaré e a própria Kidal. A capital Bamako também teve registros de explosões e tiroteios.

Além do FLA, o grupo Jama’at Nusrat al-Islam Wal-Muslimin (JNIM), coalizão jihadista maliana afiliada à Al-Qaeda, realizou ofensivas paralelas, ampliando a pressão sobre o governo militar malinês.

Em Kati, cidade próxima à capital e sede de uma das principais bases militares do país, o ministro da Defesa, Sadio Camara, morreu após um ataque com caminhão-bomba contra sua residência, um dos episódios mais graves da recente onda de violência.

Acordo garantiu retirada segura

Segundo o porta-voz do FLA, Mohamed Elmaouloud Ramadane, um acordo foi firmado com os russos para garantir a retirada segura das forças envolvidas nos combates em Kidal.

Antes disso, o grupo separatista afirmava que permanecia na cidade devido à presença de militares do Mali e de mercenários russos. Com a saída confirmada, o FLA reforçou sua posição de controle sobre a região.

Mesmo com a retirada, o Afrika Korps afirmou que seguirá operando em outras partes do Mali. O grupo também informou que evacuou feridos e equipamentos pesados da cidade.

Presença russa

A atuação russa no Mali se intensificou após o afastamento de forças ocidentais e a aproximação do governo militar com Moscou. Muitos dos combatentes do Afrika Korps integravam anteriormente o Wagner Group, reorganizado após a morte de seu líder, Yevgeni Prigozhin, em 2023.

Sob comando do Ministério da Defesa da Rússia, o Afrika Korps atua em diversos países africanos, frequentemente em troca de acesso a recursos naturais como ouro, diamantes e urânio.

Especialistas apontam que a retirada de Kidal pode indicar dificuldades operacionais ou uma reconfiguração da estratégia russa no país, diante da pressão simultânea de insurgentes separatistas e grupos jihadistas.

O Mali enfrenta há mais de uma década uma crise de segurança marcada por conflitos no norte, disputas étnicas e a presença crescente de organizações extremistas. A instabilidade tem provocado deslocamentos internos, crises humanitárias e enfraquecimento das instituições estatais.

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