Vladimir Putin é ‘paranoico’ e não vai parar na Ucrânia, de acordo com ex-chefe da Otan

Dinamarquês Anders Fogh Rasmussen afirma que sanções leves do passado encorajaram o líder russo a invadir a Ucrânia
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Ex-primeiro-ministro da Dinamarca, Anders Fogh Rasmussen foi secretário-geral da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) entre 2009 e 2014 e entrou em rota de colisão com o presidente da Rússia Vladimir Putin durante esse período. Em entrevista à rede Radio Free Europe publicada no sábado (12), o dinamarquês afirmou que o líder russo mudou muito com o passar do tempo, tornou-se um sujeito “paranoico” e vê a agressão à Ucrânia como uma etapa importante do que acredita ser uma luta para não ser deposto pelo Ocidente.

Rasmussen cita as revoluções populares ocorridas na Geórgia e na Ucrânia, entre 2004 e 2005, como o ponto de virada do líder russo. “Não devemos esquecer que Vladimir Putin cresceu na KGB. Então, seu pensamento é muito impactado por esse passado. Eu acho que ele sofre de paranoia”, disse o ex-chefe da Otan. “E ele pensou que, depois das revoluções coloridas na Geórgia e na Ucrânia, o objetivo [do Ocidente] era iniciar uma mudança de regime no Kremlin também”.

Para o dinamarquês, contribuiu muito para fortalecer Putin a falta de uma resposta dura a ações como a invasão da Geórgia, em 2008, e a tomada da Crimeia, em 2014. Ele próprio diz que tem uma parcela de culpa nisso. “Por exemplo, após o conflito de 2014, quando Putin anexou ilegalmente a Crimeia à Federação Russa, impusemos sanções modestas à Rússia. E Putin interpretou isso como quase um convite para ir mais longe. E agora ele foi mais longe. Acho que devemos fazer mais do que já fizemos”.

Anders Fogh Rasmussen, ex-premiê da Dinamarca e ex-chefe da Otan (Foto: Wikimedia Commons)

Falando especificamente sobre a Escandinávia que tão bem conhece, Rasmussen cita os casos de Finlândia e Suécia, que hesitam em entrar na Otan, sendo constantemente ameaçadas por Moscou em caso de ingresso na aliança. Segundo ele, um eventual pedido de adesão dos dois países seria aprovado “mais ou menos da noite para o dia”. E o momento atual é propício para isso, vez que existe uma justificativa clara. “Isso enviaria um sinal extremamente importante para Putin e seria considerado uma grande derrota para Putin no ambiente atual”.

Dois casos semelhantes foram justamente os de Ucrânia e Geórgia, que não ingressaram na Otan como membros e vieram a ser invadidas pela Rússia. “Acho que foi um erro não conceder Planos de Ação de Adesão à Ucrânia e à Geórgia em 2008. Porque enviou o sinal errado a Putin”, afirmou o dinamarquês.

Agora, com o conflito iniciado e a Otan se recusando a prestar apoio militar à Ucrânia, Rasmussen entende que a aliança deveria ao menos intensificar o envio de amamento a Kiev. “O que precisamos agora é a entrega imediata de drones de combate, antitanque, armas antiaéreas, entrega imediata para intensificar nossa ajuda militar para tornar o Exército ucraniano e o povo ucraniano ainda mais capazes de se defender”, disse ele. “Porque devemos perceber que esta é uma escolha entre confrontar Putin agora ou ter que lutar com ele mais tarde. Porque Putin não vai parar na Ucrânia”.

Por que isso importa?

A escalada de tensão entre Rússia e Ucrânia, que culminou com a efetiva invasão russa ao país vizinho no dia 24 de fevereiro, remete à anexação da Crimeia pelos russos, em 2014, e à guerra em Donbass, que começou naquele mesmo ano e se estende até hoje.

O conflito armado no leste da Ucrânia opõe o governo central às forças separatistas das autodeclaradas Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, que formam a região de Donbass e foram oficialmente reconhecidas como territórios independentes por Moscou. Foi o suporte aos separatistas que Putin usou como argumento para justificar a invasão, classificada por ele como uma “operação militar especial”.

“Tomei a decisão de uma operação militar especial”, disse Putin pouco depois das 6h de Moscou (0h de Brasília) de 24 de fevereiro, de acordo com o site independente The Moscow Times. Cerca de 30 minutos depois, as primeira explosões foram ouvidas em Kiev, capital ucraniana, e logo em seguida em Mariupol, no leste do país, segundo a agência AFP.

Desde o início da ofensiva, as forças da Rússia caminham para tentar dominar Kiev, que tem sido alvo de constantes bombardeios. O governo da Ucrânia e as nações ocidentais acusam Moscou de atacar inclusive alvos civis, como hospitais e escolas, o que pode ser caracterizado como crime de guerra ou contra a humanidade.

Fora do campo de batalha, o cenário é desfavorável à Rússia, que tem sido alvo de todo tipo de sanções. Além das esperadas punições financeiras impostas pelas principais potencias globais, que já começaram a sufocar a economia russa, o país tem se tornado um pária global. Representantes russos têm sido proibidos de participar de grandes eventos em setores como esporte, cinema e música.

De acordo com o presidente dos EUA, Joe Biden, as punições tendem a aumentar o isolamento da Rússia no mundo. “Ele não tem ideia do que está por vir”, disse o líder norte-americano, referindo-se ao presidente russo Vladimir Putin. “Putin está agora mais isolado do mundo do que jamais esteve”.

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