Em Wuhan, há silêncio oito meses após o surgimento do novo coronavírus

Acesso de jornalistas estrangeiros a epicentro da pandemia, na China, estão cada vez mais restritos, informa BBC
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A cidade de Wuhan, na China, não é mais a mesma nove meses após o primeiro registro do novo coronavírus. O acesso da imprensa internacional é cada vez mais restrito, cidadãos são proibidos de falar e o acesso ao mercado onde o surto teria começado foi bloqueado para jornalistas.

Em reportagem, a BBC retoma a discussão. O material relata os primeiros casos e a postura por parte do governo local nos primeiros dias após o registro de que uma pneumonia suspeita circulava por Wuhan.

De acordo com o portal, mesmo com o alerta do médico Li Wenliang, morto com Covid-19 meses depois, pouco foi feito. A preocupação das autoridades locais, diz a reportagem, era a de controlar as informações a respeito da nova doença – para seus cidadãos e para o resto do mundo.

Cidadãos de Wuhan fazem fila para comprar máscaras em uma farmácia, em imagem de janeiro de 2020 (Foto: Wikimedia Commons)

O governo, cientistas e cidadãos silenciam sobre as mortes e a origem do vírus. O medo é generalizado e os dados disponíveis são apenas os oficiais.

A China enfrenta acusações de que ocultou a gravidade da doença da comunidade internacional nos primeiros dias da epidemia. Segundo a BBC, embora o bloqueio em Wuhan tenha controlado o surto na cidade, a conduta do governo chinês facilitou a transmissão descontrolada do vírus para outras partes do mundo.

Um estudo sugeriu que, se o governo tivesse agido uma semana antes, o número de casos na China poderia ser reduzido em 66%. As autoridades negam. Insistem que, diante de uma doença até então desconhecida, sua resposta foi rápida e elogiada pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

Origem das infecções

À primeira vista, o vírus teria sido transmitido por algum animal do mercado de frutos do mar de Huanan. O local é conhecido pela venda de mamíferos selvagens como iguarias. 

Os cidadãos de Wuhan usam máscaras para comprar vegetais, em janeiro de 2020 (Foto: Wikimedia)

Na testagem de amostras retiradas do mercado havia traços do vírus, mas o micro-organismo não foi encontrado nos animais vendidos ali.

A conclusão das autoridades foi a de que a circulação do vírus começou em outro lugar. O mercado lotado teria sido, em vez disso, o principal vetor de transmissão da doença entre seres humanos.

Um artigo publicado pela revista científica “Nature” indica que a transmissão do vírus pode ter sido impulsionada pelo crescimento populacional e pela invasão humana em habitats de animais selvagens.

Feito em laboratório?

De acordo com a BBC, dois incidentes ocorreram no Instituto Nacional de Virologia de Pequim em 2004.

Em um deles, um pesquisador contraiu a primeira versão da Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave) após duas semanas no laboratório. Ele infectou sua mãe, que morreu, e uma enfermeira. 

O fato de o novo coronavírus surgir na mesma cidade onde há um laboratório dedicado a estudá-lo chamou a atenção da especialista Shi Zhengli.

instituto de virologia de wuhan em 2016
O Instituto de Virologia de Wuhan em 2016 (Foto: Wikimedia)

O Instituto de Virologia de Wuhan tornou-se ponto focal de teorias da conspiração, suspeitas e alegações de que o vírus possa ter sido vazado. 

O laboratório é referência em pesquisas de morcegos e de coronavírus. Um artigo recente, de coautoria da professora Shi, oferece detalhes sobre centenas de coronavírus de vindo desses mamíferos.

A pesquisa inclui modificação genética de alguns desses vírus, incluindo a construção de novos vírus quiméricos – usados para examinar seu potencial de infectar humanos e causar pandemias.

Quando a professora Shi soube do surto no final de dezembro, lembrou-se dos vírus armazenados nos freezers do instituto

Em uma entrevista à Scientific American, ela disse lembrar de ter pensado que se os coronavírus tivessem desencadeado a pandemia: “Será que eles poderiam ter vindo de nosso laboratório?”

Embora a teoria do vazamento de laboratório tenha encontrado eco em todo o mundo, foi rejeitada pelos cientistas. Até o momento, a teoria mais aceita é a de que um evento natural tenha sido a causa do surgimento da Sars-CoV-2 ou Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

O que indicam as evidências

Preocupada em descartar o envolvimento de seu laboratório no surto, Shi começou a pesquisar todos os registros experimentais e as amostras já armazenadas em seu laboratório. A virologista reatou a experiência em entrevista à revista norte-americana “Scientific American”.

Em fevereiro, Shi conseguiu encontrar o parente mais próximo do Sars-Cov-2. Um vírus, que ela chamou de RaTG13, coletado de um morcego em 2013, mostrou 96,2% de similaridade com o Sars-CoV-2.

Embora pareça próximo, a diferença genética de 3,8% entre os dois levaria décadas de mudança evolutiva para ocorrer na natureza. “Isso tirou um peso da minha mente”, disse o professor Shi à Scientific American. “Eu não dormia há dias.”

Mas a evidência mais forte sobre um possível vazamento de laboratório foi a um artigo publicado em março na revista médica “Nature Medicine“. Características de proteínas da Sars-CoV-2 apontam surgimento na natureza, argumentam os autores.

Além disso, a produção do vírus se baseia em alta tecnologia computacional, e um computador seria incapaz de prever a força de ligação do vírus. 

Além disso, para criar o Sars-CoV-2 em um laboratório, é necessário começar com um vírus que tenha correspondência genética muito mais próxima do que RaTG13, o ancestral distante encontrado no freezer de Wuhan. Um novo vírus não pode ser feito a partir de um que não existe.

Mais provável seria o vírus ter adquirido suas características enquanto circulava, sem ser detectado, em humanos ou animais por meses ou anos.

“A maioria das teorias que consideram um link para o laboratório são teorias da conspiração”, aponta Kristian Andersen, professor de imunologia e microbiologia do Scripps Research Institute, nos Estados Unidos, à BBC. “Eles prejudicam os esforços de manter a Covid-19 sob controle e resultam em sofrimento humano desnecessário”, conclui.

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