África

Quem é Assimi Goita, o protagonista do mais recente capítulo na crise do Mali

O coronel reformado anunciou a demissão do presidente e premiê do Mali ao alegar violação à carta de transição

O nome do coronel Assimi Goita escalou nos noticiários internacionais no mesmo dia em que soldados amotinados forçaram a renúncia do ex-presidente do Mali, Ibrahim Boubakar Keita, em 18 de agosto de 2020. Nesta terça (25), menos de um ano depois, ele volta a público como o chefe de Estado do país africano.

Coronel reformado, Goita anunciou a demissão do presidente Bah Ndaw e do primeiro-ministro Moctar Ouane um dia depois de ordenar a prisão de ambos na capital Bamako, na segunda (24). Segundo ele, os dois líderes civis violaram a carta de transição ao não consultá-lo na escolha do novo governo.

Os planos de Goita para tomar o poder do Mali são explícitos. O coronel já anunciou que quer continuar como vice-presidente para “supervisionar” o governo de transição de 18 meses – um espaço que ele alega ter-lhe sido tirado na remodelação do gabinete de Ouane.

Quem é Assimi Goita, o protagonista do mais novo capítulo na crise do Mali
O coronel e vice-presidente do Mali, Assimi Goita, após a criação do governo do transição em setembro de 2020 (Foto: Reprodução/Facebook/Vice-Président Assimi Goita)

Apesar da exigência do órgão regional Ecowas para que um líder civil assumisse o cargo, é Goita o verdadeiro mediador do poder na instável nação da África Ocidental. Ao liderar o motim contra Keita, foi celebrado como um herói após prometer livrar o Mali da corrupção, da profunda crise econômica e do avanço jihadista.

Nove meses depois, pouco se cumpriu. Uma greve sindical irrompeu no país no dia 10 e já ameaça paralisar a economia malinesa. Foi então que o governo interino concordou em nomear um novo gabinete de base mais ampla – a origem do segundo golpe do Mali em dois anos, registrou o diário queniano “Nation”.

“O governo liderado por Ouane mostrou-se incapaz de ser um parceiro confiável”, disse Goita em comunicado na televisão estatal. Dessa forma, o coronel sobe ao cargo de chefe de Estado – lugar de poder ocupado com prestígio nos meses que antecederam a negociação para o governo transitório.

A crise política do Mali

Articulador político convincente, Goita presenciou a controversa reeleição de Keita em 2018. À época, opositores contestavam o pleito ao alegar fraude e irregularidades diversas. As eleições legislativas de março de 2020 reacenderam o conflito contra o ex-presidente.

No mesmo mês, o líder da oposição, Soumaila Cissé, foi sequestrado e ficou desaparecido por seis meses. Ele morreu em dezembro após ser contaminado com Covid-19. O desaparecimento de Cissé levantou a população contra Keita. Goita já estava a postos quando o clérigo muçulmano Mahmoud Dicko passou a pedir a renúncia do presidente.

Em agosto, a situação se deteriorou, e o coronel liderou soldados até Bamako. Keita decidiu denunciar depois de ser capturado por soldados junto do então primeiro-ministro Boubou Cissé. “Viemos defender a República”, disse Goita à época, após prometer eleições em 2022.

O Mali enfrenta simultaneamente a crise política e o avanço de grupos jihadistas no interior do país. O problema se acentuou depois de 2012, quando militantes extremistas islâmicos conseguiram tomar quase dois terços do território. As vitórias militares ocorriam nas franjas da insurgência de tribos tuaregues, que habitam o norte.

Em 2012, Goita também agiu pela queda do então presidente Amadou Toumani. Da mesma forma que agiu com Keita, o coronel organizou um motim de soldados no mesmo batalhão que destituiu o presidente em agosto.

Agora, uma delegação do Ecowas se prepara para ir ao Mali discutir sobre a liberação de Ndaw e Ouane, registrou a emissora VOA (Voice of Africa). Em resposta à crise, Goita garantiu que o Mali permanecerá com o governo de transição.