O presidente de Mianmar, Min Aung Hlaing, líder do golpe de Estado em 2021, foi recebido pelo presidente da China, Xi Jinping, em uma visita de Estado a Beijing que reforça o apoio chinês ao novo governo birmanês e amplia a projeção internacional da administração instalada após a transição para um governo nominalmente civil. As informações são da Nikkei Asia.
O encontro ocorreu poucos dias após Min Aung Hlaing realizar uma visita oficial à Índia, onde se reuniu com o primeiro-ministro Narendra Modi. As agendas internacionais são vistas como um movimento para fortalecer a posição do governo de Mianmar no cenário diplomático, em meio às críticas e à falta de reconhecimento das eleições realizadas recentemente por parte de diversos países e organismos internacionais.
Durante a reunião em Beijing, Xi Jinping reafirmou o apoio da China à estabilidade e ao desenvolvimento de Mianmar. Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, o líder chinês incentivou o país vizinho a encontrar o “caminho certo” para equilibrar crescimento econômico e segurança interna.

Um dos principais temas discutidos foi a retomada do Corredor Econômico China-Mianmar, projeto bilionário de infraestrutura que conecta a província chinesa de Yunnan ao Oceano Índico por meio do território birmanês. A iniciativa integra a estratégia chinesa de expansão comercial e logística na região, mas sofreu atrasos após o golpe militar de 2021 e a intensificação dos conflitos internos em Myanmar.
Os dois governos também assinaram 18 acordos de cooperação bilateral. Embora poucos detalhes tenham sido divulgados, os documentos abrangem áreas como comércio transfronteiriço, saúde, assistência em desastres naturais e comunicação.
Outro ponto destacado por Xi Jinping foi o combate ao crime transnacional. O presidente chinês pediu ações contínuas contra fraudes eletrônicas, jogos de azar ilegais e tráfico de drogas, problemas que têm se intensificado nas regiões fronteiriças de Myanmar e gerado preocupação em Pequim.
Apesar do apoio ao governo de Naypyidaw, a China mantém uma estratégia de equilíbrio político no país. Beijing preserva relações tanto com as autoridades centrais quanto com grupos armados étnicos que atuam em diferentes regiões do território birmanês, buscando proteger seus interesses econômicos e de segurança.
A visita ocorre em um momento delicado para a economia de Mianmar. Relatório divulgado pelo Banco Mundial aponta que o país registrou retração econômica de 2% no período de 2025-2026. A instituição destaca que a inflação alcançou 24,6% em abril, impulsionada pelo aumento dos preços da energia e pelos impactos das tensões geopolíticas no Oriente Médio.
Embora o Banco Mundial projete crescimento de 2% para 2026-2027, a avaliação é de que a recuperação econômica permanece frágil devido às dificuldades estruturais e à instabilidade política que continuam afetando o país.
Por que isso importa?
Mianmar enfrenta “uma campanha de terror com força brutal”, segundo palavras da ONU (Organização das Nações Unidas). A repressão imposta pelo governo militar foi uma reação às eleições presidenciais de novembro de 2020.
Na ocasião, a NLD venceu as eleições com 82% dos votos, ainda mais do que havia obtido no pleito de 2015. Em fevereiro de 2021, então, a junta militar, que já havia impedido a sigla de assumir o poder antes, prendeu Suu Kyi, dando início a protestos respondidos com violência pelas forças de segurança nacionais.
As ações abusivas da junta levaram ao isolamento global de Mianmar, e em dezembro de 2022 o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução histórica que insta os militares a libertar Suu Kyi. A Resolução 2669 ainda exige “o fim imediato de todas as formas de violência” e pede que “todas as partes respeitem os direitos humanos, as liberdades fundamentais e o Estado de Direito”.
A proposta, feita pelo Reino Unido, foi aprovada no dia 21 de dezembro de 2022 com 12 votos a favor. Os membros permanentes China e Rússia se abstiveram, optando por não exercer vetos. A Índia também se absteve.
Beijing e Moscou, por sinal, estão entre os poucos governos do mundo que mantêm relações formais com Mianmar, inclusive vetando resoluções que venham a condenar a brutalidade dos atos contra opositores e a população civil em geral, como no caso de dezembro de 2022.
Inicialmente, o golpe de Estado foi recebido com reprovação pela China, que vinha dialogando para firmar acordos comerciais com o governo eleito e perdeu financeiramente com a queda. Mas o cenário mudou rapidamente. Para não se distanciar da junta, Beijing classificou a prisão de Suu Kyi e de outros funcionários do governo como uma “remodelação de gabinete”, palavras usadas pela agência de notícias estatal Xinhua.
A China é um também dos principais fornecedores de armas para a juntar militar, desrespeitando um pedido de embargo global feito pela ONU para enfraquecer o regime birmanês. Há indícios de que as forças locais seguem se equipando com novos armamentos chineses, tendo ainda como fornecedores complementares a Rússia e o Paquistão.