Paralisação em mina na Guiné ameaça plano da China de aliviar dependência da Austrália

Junta militar que liderou golpe de Estado interrompe trabalhos nas montanhas Simandou, com alto investimento de Beijing
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Após o golpe de Estado na Guiné, que em setembro de 2021 destituiu o presidente Alpha Condé, impactos foram sentidos na África Ocidental e nos mercados globais de commodities. A junta militar que assumiu o poder garantiu que as mineradoras no país, o segundo maior produtor mundial de bauxita e dono de ricas reservas de minério de ferro, ouro e diamante, poderiam continuar com suas atividades. Além disso, assegurou que “seriam respeitados os regulamentos, contratos e investimentos existentes”. Na prática, não é bem o que está acontecendo e quem mais deve sofrer com isso é a China, mostra reportagem no portal Yahoo Finance.

Na semana passada, os militares guineenses paralisaram as operações no projeto Simandou, considerado um dos maiores depósitos de minério de ferro não desenvolvidos do mundo. A obra vinha sofrendo atrasos na execução por conta de anos de disputas sobre a propriedade. A lentidão na construção de uma ferrovia de 650 km necessária para transportar os elementos extraídos para os portos guineenses também atrapalhou a execução.

Diante de um trabalho sem progresso, o presidente interino Mamady Doumbouya alegou que não estava claro como a mina estaria contribuindo para os interesses da nação africana. A decisão de cancelar as atividades no local foi como um balde de água fria nos interesses da China, que colocou dinheiro no projeto e buscava, ali, desafogar a “Austrália-dependência”, avaliam observadores.

Imagem aérea de Simandou feita em 2016 (Foto: Rio Tinto/Reprodução)

Beijing tem uma grande participação no consórcio, sendo uma das principais investidoras. Simandou é tida pelos chineses como uma fonte potencial de minério para ajudar na redução da dependência de suprimentos econômicos da Austrália, com quem as relações andam estremecidas do ano passado para cá devido a desconfianças de Camberra com a origem da Covid-19 e suspeitas de espionagem estatal operada pela gigante das telecomunicações Huawei.

Simandou, uma espécie de montanha de ferro que vale ouro, está dividida em quatro blocos e, segundo estimativas, possui 2 bilhões de toneladas em reservas de minério de ferro de alta qualidade em escala comercial. O consórcio tem como investidores a multinacional anglo-australiana Rio Tinto, que detém 45% dos blocos 3 e 4, a Aluminum Corp of China (Chinalco), com 40%, e o governo da Guiné, com os 15% restantes. Já os blocos 1 e 2 foram cedidos em 2019 a Société Miniere de Boke (SMB), consórcio formado pelo conglomerado cingapuriano Winning Shipping, que opera negócios em áreas que incluem navios, mineração e construção ferroviária, o produtor chinês de alumínio Shandong Weiqiao, o Yantai Port Group e a empresa guineense de transporte e logística United Mining Supply.

A riqueza guineense em minério de ferro e bauxita, usados na fabricação de aço e alumínio – produtos de alta demanda na China –, é o principal elo entre os dois países. E mesmo as acusações de fraude eleitoral na Guiné não impediram Beijing de oferecer apoio ao presidente reeleito pela terceira vez em 2020 e que seria destituído em setembro, Alpha Condé. Além da parceria comercial, a China é a principal credora da Guiné. Em 2017, Beijing aceitou emprestar US$ 20 bilhões ao longo de duas décadas em troca de concessões de bauxita do país da África Ocidental.

Com o revés ocasionado por Simandou, a China deve seguir dependente da Austrália, que é responsável por cerca de 60% das importações de minério de ferro ao país. Para piorar o cenário, a dependência aumentou nas últimas semanas por contas das sanções à Rússia devido ao conflito na Ucrânia, elevando o preço das commodities, incluindo o minério de ferro australiano.

“As sanções à Rússia provavelmente fortalecerão a determinação da China de reduzir sua exposição a futuras tarifas ou sanções. A Guiné continuará importante tanto para seu minério de ferro quanto para a bauxita”, disse W. Gyude Moore, membro sênior de políticas do Centro para o Desenvolvimento Global e ex-ministro de obras públicas da Libéria.

Moore ainda acrescentou que “Simandou é um dos poucos lugares com quantidade e qualidade para suprir a demanda industrial da China, pois reduziu sua dependência dos minerais australianos”.

De acordo com tablóide chinês Global Times, no início da semana que “representantes e funcionários da Chinalco buscaram ativamente uma solução conjunta para uma rápida retomada do trabalho no projeto Simandou na Guiné”.

Segundo Moore, a China marcou presença na África nas últimas duas décadas e, por conta das relações estabelecidas, “uma resolução para a suspensão de Simandou era possível”.

Impacto ambiental

A construção da mina na Guiné envolve a construção de um túnel ferroviário em uma área que é o habitat natural do chimpanzé-ocidental, animal em risco de extinção. A obra não possui plano para gerenciar o impacto sobre os animais. Explosões em junho do ano passado feitas pela construtora contratada pela WCS para executar a obra da ferrovia, a China Railway 18 Bureau Group Co Ltd, teriam causado grandes impactos.

O país é o lar de quase dois terços dos 52,8 mil chimpanzés-ocidentais selvagens restantes no mundo. De acordo com uma análise de imagens de satélite fornecidas pela empresa Planet Labs, extensos trabalhos em túneis estão em andamento há vários meses.

Relações envenenadas

A relação cordial entre China e Austrália começou a deteriorar em 2018, quando Camberra proibiu a Huawei de fornecer equipamentos para uma rede móvel 5G, citando riscos de interferência estrangeira. E teve piora em 2020, quando os australianos cobraram uma investigação independente sobre a origem do coronavírus em Wuhan, o que despertou a ira dos chineses.

Um documento de 14 páginas vazado de forma deliberada pela Embaixada da China na Austrália em novembro do ano passado já apontava a grave deterioração nas relações entre os dois países. Nele, Beijing acusava o primeiro-ministro Scott Morrison de “envenenar as relações bilaterais”.

A carta ainda culpava Camberra pelos relatórios “hostis e antagônicos” sobre a China na mídia australiana independente e pelos ataques ao acordo do Cinturão da Rota da Seda no estado de Victoria, onde fica Melbourne.

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