ARTIGO: Um ano após protestos contra Lukashenko, Belarus está ao alcance de Putin

Apoio a Minsk é uma forma eficaz e barata de Moscou mostrar sua capacidade de ameaçar a União Europeia
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Este conteúdo foi publicado originalmente em inglês no site da Deutsch Welle

Por Konstantin Eggert

Desde que o povo em Belarus tomou as ruas na noite de 9 de agosto de 2020 para protestar contra os resultados de uma eleição presidencial fraudulenta, uma figura se abateu sobre o país.

Não é Alexander Lukashenko, seu governante por 27 anos; nem Sviatlana Tsikhanouskaia, que foi a principal adversária de Lukashenko e agora lidera um governo provisório de fato em Belarus no exílio. A figura é o presidente russo Vladimir Putin.

Petróleo, armas e Ryanair

Desde que o homem forte da Rússia parabenizou Lukashenko por sua “vitória” eleitoral em agosto passado, o Kremlin vem consolidando seu controle sobre o país vizinho.

Lukashenko encontra-se regularmente com Putin. Os relatos oficiais dessas reuniões invariavelmente mencionam um empréstimo russo concedido ou estendido ao regime de Minsk, ou as entregas de petróleo e gás russas a Belarus acordadas a preços baixos.

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Encontro entre Alexander Lukashenko e Vladimir Putin em 2015 (Foto: Wikimedia Commons)

Em um desenvolvimento mais sinistro, os exércitos russo e belarusso vêm realizando exercícios militares conjuntos quase ininterruptamente há um ano. Os exercícios atingirão seu clímax em setembro, com jogos militares em grande escala chamados “Zapad”, que significa “Ocidente” em russo.

Provavelmente, a tendência mais significativa do ano passado – embora muito menos visível – foi o que muitos especialistas já estão chamando de absorção gradativa do Comitê de Segurança do Estado de Belarus (que ainda se autodenomina orgulhosamente de KGB) por seu “irmão” mais velho, a russa FSB (Agência de Segurança Federal, da sigla em inglês).

Acredita-se que o embaixador da Rússia em Minsk, Yevgeny Lukyanov, tenha servido tanto na KGB soviética quanto na FSB.

Serviços de inteligência russos e belarussos unem forças

Recentemente, poucos dias após um ato descarado de pirataria aérea permitir às autoridades belarussas desviar um voo comercial da Ryanair e forçá-lo a pousar em Minsk sob falsos pretextos para que agentes da KGB prendessem o ativista e jornalista anti-Lukashenko Roman Protasevich e sua namorada (cidadã russa), ambas as agências anunciaram com orgulho que aumentariam a cooperação contra o “Ocidente destrutivo”.

O regime de Lukashenko até exibiu um Protasevich deprimido e assustado diante das câmeras de TV estatais para fazer confissões forçadas sobre atividades subversivas em uma cena digna dos julgamentos-espetáculo da era Stalin.

Eminentes observadores dos serviços de segurança, como Mark Galeotti, acreditam que o FSB ajudou seus “colegas” belarussos a realizar a operação.

Uma suspeita semelhante de cooperação interagências paira sobre a misteriosa morte do ativista belarusso Vital Shishou, que a polícia encontrou enforcado em um parque de Kiev nesta semana. Shishou havia emigrado para escapar da dura realidade da prisão inevitável e possível tortura em Belarus.

Lukashenko desafiaria a UE sem o apoio de Putin?

Nesta atmosfera de medo e intimidação, não é surpresa que os comícios antirregime em Belarus tenham praticamente cessado, com centenas, senão milhares de belarussos fugindo do país, principalmente para as vizinhas Polônia e Lituânia.

Em julho, Lukashenko também intensificou seu confronto com a UE, abandonando o tratado de readmissão UE-Belarus e abrandando as restrições de visto de seu país para permitir que milhares de migrantes do Oriente Médio, Ásia e África cruzassem livremente para a Lituânia – um Estado-Membro da UE.

As autoridades lituanas chamaram a mudança de “um ato de guerra híbrido”, enquanto lutavam para abrigar centenas e depois milhares de migrantes e fortificar sua fronteira.

É altamente improvável que o ditador belarusso tivesse adotado uma postura tão agressiva em relação à UE sem que Putin concordasse primeiro com isso.

Para o Kremlin, o apoio a Minsk é uma forma eficaz e barata de mostrar que não deixa os aliados em apuros, bem como de exibir sua capacidade de ameaçar a UE em grande escala.

Mesmo assim, os oponentes de Lukashenko, incluindo Sviatlana Tsikhanouskaya, permanecem relutantes em mencionar Putin e continuam a falar apenas sobre o regime de Lukashenko que ameaça a Europa. Alguns até sugeriram para mim, em conversas privadas, a crença de que Putin acabará se cansando de Lukashenko o embaraçar e concordará em mediar sua saída da política. Esse tipo de cálculo é um grande erro.

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Sviatlana Tsikhanouskaya no Ministério de Relações Exteriores da Estônia, janeiro de 2021 (Foto: Divulgação/Estonian Foreign Ministry)

Qual é o fim do jogo de Putin em Belarus?

Tudo o que o Kremlin está fazendo aponta para o objetivo de a Rússia absorver Belarus de uma forma ou de outra, embora possa permanecer oficialmente no mapa com Lukashenko como governante.

Putin não precisa repetir sua operação na Crimeia de 2014 para obter o controle total de Belarus. Seria suficiente Minsk concordar em hospedar bases militares russas, bem como adotar o rublo como sua moeda nacional.

Isso tornaria Putin o senhor da economia belarussa – permitindo a aquisição subsequente de seus ativos mais valiosos por empresas russas selecionadas pelo Kremlin – bem como proporcionaria uma ponte que permitiria à Rússia enfrentar simultaneamente a Ucrânia ao sul e a Polônia, membro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), ao oeste.

Depois que o isolamento internacional de Putin foi efetivamente encerrado por Joe Biden em sua cúpula em Genebra, em junho, parece haver pouca vontade nos EUA ou na UE de impedir tais desenvolvimentos, caso Putin prossiga para assumir o controle de Belarus. Com a maioria dos ativistas assassinados, na prisão ou no exílio, a oposição belarussa também não pode.

Quando a revolução democrática em Belarus começou, há um ano, poucos imaginavam que a crueldade de Lukashenko, o dinheiro de Putin e suas agências de segurança combinadas desequilibrariam tanto a balança que a existência do país acabaria por ficar em jogo.

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