Europa

Crise energética pode ser estratégia russa para desestabilizar a UE, diz especialista

Suprimento insuficiente de gás natural enviado pela Rússia tende a gerar conflitos entre Estados-Membros em meio à escassez do inverno europeu

A Europa já se prepara para lidar com a escassez de gás natural durante o inverno, com possiblidades de racionamento de energia e paralisação parcial da indústria. Por trás desse problema, que vem acompanhado de um aumento de 400% nos preços do combustível, está a Rússia. Na visão de especialistas, a queda no fornecimento de gás por Moscou pode ser uma estratégia para desestabilizar a União Europeia (UE), segundo a rede Voice of America (VOA).

Thierry Bros, ex-especialista em petróleo e gás do Ministério da Economia da França, entende que a retenção do suprimento complementar de gás pela Rússia à UE é proposital, parte de uma estratégia para provocar disputas políticas entre os 27 Estados-Membros do bloco. “Acho que talvez seja por isso que o Kremlin está pressionando um pouco mais essa crise de energia”, disse ele.

Crise energética pode ser estratégia russa para desestabilizar a UE, diz especialista
Obras do gasoduto Nord Stream 2, que ligará a Rússia à Alemanha (Foto: Uwe Aranas/Crative Commons)

A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) já havia denunciado a redução proposital no fornecimento. Direcionou a acusação à Gazprom, gigante energética russa controlada pelo Estado. A empresa se defendeu dizendo apenas que tem cumprido com todas as suas obrigações contratuais. A IEA chegou a pedir à Rússia que enviasse mais gás, uma repreensão incomum que corrobora a narrativa de que Moscou teria responsabilidade na crise energética.

Bros, porém, usou números para ratificar a denúncia, em um post no Twitter: “Em novembro, as exportações diárias de gás canalizado da Rússia para a Europa caíram 14% em relação a outubro, que foi um mês de baixa recorde. O reabastecimento do armazenamento da UE da Gazprom não muda a tendência geral de retirada, com o armazenamento agora apenas 75% cheio. Estamos entrando em territórios desconhecidos”.

O problema atraiu a atenção dos Estados Unidos, que reforçaram a suspeitas contra a Rússia. “A realidade é que existem gasodutos com capacidade suficiente através da Ucrânia para abastecer a Europa. A Rússia tem afirmado sistematicamente que tem suprimento de gás suficiente para fazer isso. Então, se isso for verdade, eles deveriam fazê-lo rapidamente através da Ucrânia”, afirmou Amos Hochstein, consultor sênior de segurança energética do Departamento de Estado dos EUA.

“Estamos preocupados com o baixo nível de armazenamento de gás e com o mercado insuficiente em comparação com os anos anteriores”, afirmou um funcionário do Departamento de Estado que prefere não ser identificado. “Os níveis mais baixos do que o normal de armazenamento de gás ilustram a importância do fornecimento diversificado de energia para atender às metas de segurança energética da Europa. Estamos ativamente empenhados em aumentar a segurança energética de nossos parceiros e Aliados europeus”.

Uma das formas de amenizar a crise e manter a população aquecida é o mecanismo de solidariedade da UE, que levaria ao fechamento de industrias para priorizar as residências. Bros, porém, projeta problemas para colocar tal sistema em funcionamento. “Podemos ver uma implementação muito difícil desse mecanismo de solidariedade. Vamos desligar algumas indústrias francesas para aquecer os alemães? Ou vamos desligar algumas indústrias alemãs para aquecer os franceses?”.

Obra do gasoduto Nord Stream 2, alvo de polêmica entre Rússia e UE (Foto: Pjotr Mahhonin/Wikimedia Commons)

Novo gasoduto russo

Os políticos europeus enxergam uma outra questão no horizonte: a certificação do gasoduto Nord Stream 2, que liga a Rússia à Alemanha contornando a Ucrânia. Na semana passada, o órgão alemão que regulamenta a questão adiou para 2022 a decisão sobre o início das operações do sistema, o que desagradou Moscou.

Yuriy Vitrenko, CEO da Naftogaz, maior empresa ucraniana de petróleo e gás, é outro que acusa a russa Gazprom, que lidera o grupo de investidores do Nord Stream 2, de deliberadamente reter o gás que poderia ir para a Europa, além de bloquear o acesso ao sistema de transporte de gás de outras empresas russas. A Ucrânia, em particular, contesta a obra e a trata como uma reprimenda política, porque o gasoduto contorna o país e, assim, tira de Kiev os milhões de euros que fatura anualmente como intermediária do fornecimento.

Por que isso importa?

O Nord Stream 2 foi projetado para fornecer gás russo diretamente para a Alemanha através do Mar Báltico, contornando a Ucrânia e a Polônia. Apesar da necessidade europeia de ampliar urgentemente a oferta de gás natural em meio à crise do setor, a obra divide opiniões, com os Estados Unidos encabeçando a oposição.

Os críticos sustentam que o novo gasoduto não é compatível com as metas climáticas europeias, acentua a dependência das exportações russas de energia e potencialmente aumentará a influência exercida pelo presidente Vladimir Putin na região. Já a Rússia e Alemanha defendem a iniciativa como “puramente comercial”, uma forma de atender à crescente demanda por gás no continente.

O gasoduto, cuja obra foi concluída em setembro deste ano, integra a estrutura do Nord Stream 1, em operação desde 2011, e é responsável pelo abastecimento de 40% do gás natural consumido pelos alemães. Em funcionamento, o Nord Stream 2 adicionará 55 bilhões de metros cúbicos de suprimento de gás por ano, ou cerca de 11% do consumo total anual da UE – em 2019, os 27 países do bloco usaram 469 bilhões de metros cúbicos.