Pujante setor de TI em Belarus torna-se vítima da instabilidade no país

Empresas ameaçam migrar para outros países; internet em Minsk foi cortada por mais de três dias após eleição
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O parque tecnológico de Minsk, em Belarus, já foi comparado ao Vale do Silício por potencial. Agora, o setor vê sua expansão ameaçada pela instabilidade política que varre o país desde que o presidente, Aleksander Lukashenko, foi reeleito sob acusações de fraude para um sexto mandato.

De acordo com a Radio Free Europe, o governo cortou a internet do país após as eleições do último dia 9 de agosto, cujo contestado resultado deu ao presidente 80% dos votos. Pesquisadores tchecos afirmam que a interrupção começou já na véspera do pleito.

Pujante setor de TI em Belarus é vítima da instabilidade no país
Shopping Galleria Minsk, na capital de Belarus, em imagem de maio de 2019 Foto: Rakoon

Segundo o NetBlocks, o bloqueio durou mais de 60 horas e causou prejuízo para a indústria. Cálculos da organização, em parceria com a Internet Society, apontam que a interrupção custou cerca de U$$ 56 milhões por dia.

Grandes empresários e investidores enviaram carta aberta a Lukashenko, pedindo que se realizasse novas eleições. O pedido veio acompanhado de ameaça: se a situação continuasse, tirariam as empresas do país. 

“Estão se formando condições no país em que uma empresa de tecnologia não pode funcionar. As startups não nascem em uma atmosfera de medo e violência”, escreveram. “Elas nascem com liberdade e abertura. Há o risco de que, em pouco tempo, todas as conquistas no campo da alta tecnologia sejam aniquiladas.”

Mudança de endereço

Um programador de Minsk, que não teve sua identidade revelada, relatou que empresas estavam transferindo algumas de suas equipes para a Rússia, Ucrânia, Lituânia, Polônia.

“Se Lukashenko permanecer no poder, quem pode deixar o país irá fazê-lo, não apenas os trabalhadores de tecnologia”, disse, à RFE.

Valery Tsapkalo, ex-embaixador nos Estados Unidos e um dos artífices da criação do parque de Minsk, ainda acusou Lukashenko de destruir a confiança que a indústria tentava cultivar. 

“O setor de alta tecnologia tem tudo a ver com confiança, não com hardware ou equipamento caro. Como você pode construir alguma coisa se a confiança foi violada? Não há mais confiança no governo, nas palavras de Lukashenko” disse Tsapkalo, ex-candidato à Presidência, que fugiu de Belarus em julho após ameaças de ser preso.

Setor de TI

Criado em 2005, o parque tecnológico de Minsk emprega cerca de 50 mil pessoas. Em 2018, o setor representou cerca de 5,5% de todo o PIB (Produto Interno Bruto) do país, avaliado em cerca de US$ 1,5 bilhão.

O ministro da Economia, Dzmitry Krutoi, previu que a fatia poderia aumentar para 10% em dois ou três anos.

Nos anos que se seguiram, ele se tornou o lar de inúmeras startups e desenvolvedores de aplicativos, utilizando as habilidades e o treinamento técnico de bielorrussos, russos, ucranianos e outros.

O “ecossistema”, como são conhecidas as comunidades de tecnologia, alimentou o desenvolvimento de aplicativos como Viber, de mensagens, e o jogo World Of Tanks.

“Lukashenko achou que [os executivos de tecnologia] poderiam ficar calados por causa dos benefícios fiscais, mas eles são cidadãos de Belarus. Eles veem o que está acontecendo nas ruas ”, disse Tsapkalo.

Pane na gestão

Segundo outro programador entrevistado pelo portal, o setor sempre esteve de fora das discussões políticas. A comunidade de TI era unida, as famílias moravam em bons bairros e os salários estavam entre os mais altos, disse.

Durante a pandemia, a situação começou a mudar. A falta de uma gestão eficiente contra a Covid-19 e política negacionista, por parte do presidente, gerou mal estar entre os executivos de tecnologia locais.

Lukashenko chegou a aconselhar, à guisa de remédio, o trabalho em campos agrícolas, idas à sauna e doses de vodka.

“Há algum tipo de limite que você não pode cruzar. Depois disso, as pessoas pararam de acreditar nele [Lukashenko]. Trabalhadores de tecnologia, todo mundo. Esse foi o ponto de virada”, finaliza.

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