Oriente Médio

Taleban proíbe novelas com mulheres no elenco e exige jornalistas com hijab na TV

Vetos figuram em lista de diretrizes do Ministério Para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, uma espécie de polícia moral talibã

Uma ordem do Taleban emitida aos canais de televisão do Afeganistão, no sábado (20), determinou o fim das exibições de novelas com mulheres no elenco e obrigou todas as jornalistas a usarem hijabs, as vestimentas preconizadas pela lei islâmica. As informações são da rede Voice of America (VOA).

Os vetos fazem parte de uma lista de oito diretrizes divulgada pelo Ministério Para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, uma espécie de polícia moral talibã, que servirá para aumentar as restrições impostas às mulheres afegãs. Além da proibição à participação de atrizes em novelas e filmes, homens não podem ser expostos “indecentemente”, sendo obrigados a estar cobertos do peito aos joelhos.

Segundo o governo, as novas diretrizes têm como objetivo combater a “imoralidade” e a exibição de imagens que “vão contra os princípios da Sharia e dos valores afegãos”. Diz ainda o comunicado que “filmes estrangeiros e produzidos localmente que promovem a cultura e as tradições estrangeiras no Afeganistão e promovem a imoralidade não devem ser transmitidos”. Também estão vetados programas que “insultem” ou minem a “dignidade” das pessoas.

Deslocadas em campo de refugiados em Mazar-e-Sharif, ao norte do Afeganistão, em abril de 2020 (Foto: Unicef/Omid Fazel)

Quando assumiu o poder e a questão de gênero veio à tona, o Taleban disse que não retomaria a repressão absoluta de seu governo anterior, entre 1996 e 2001, quando a polícia moral chegava a agredir mulheres por mostrarem os pulsos ou tornozelos, ou mesmo por deixarem suas casas desacompanhadas. Essa violência levou ao isolamento diplomático do Afeganistão, um problema que até hoje prejudica financeiramente o país..

Agora, mais de três meses após assumir o poder, o Taleban busca reconhecimento internacional como governo de fato do que chama de “Emirado Islâmico“. Porém, embora já tenha se reunido com diversos representantes de outros países, o Taleban ainda não foi reconhecido formalmente por nenhuma nação.

Mais que legitimar o poder talibã internacionalmente, esse reconhecimento é crucial para fortalecer financeiramente um país pobre e sem perspectivas imediatas de gerar riqueza. Inclusive, os Estados Unidos, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) cortaram recentemente o acesso de Cabul a mais de US$ 9,5 bilhões em empréstimos, fundos e ativos.

Por que isso importa?

A repressão de gênero é uma das principais marcas desse início de governo talibã e se espalha por diversas setores da sociedade. As mulheres que tinham cargos no governo afegão antes da ascensão talibã seguem impedidas de trabalhar, e a cúpula do governo que prometia ser inclusiva é formada somente por homens. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã.

Na educação, o governo extremista tem postergado uma tomada de decisão, o que mantém fora da escola as meninas acima dos sete anos de idade em diversas regiões do país. Por ora, apenas cinco das 34 províncias do país permitiram a volta das meninas à escola, e muitas têm recorrido a uma escola que aplica aulas online.

Mulheres também não podem sair de casa desacompanhadas, e há relatos de solteiras e viúvas forçadas a se casar com combatentes. Para lembrar as afegãs de suas obrigações, os militantes ergueram cartazes em algumas áreas para informar os moradores sobre as regras. Em partes do país, as lojas estão proibidas de vender mercadorias a mulheres desacompanhadas.

Há também um código de vestimenta para as mulheres, forçadas a usar o hijab quando estão em público. Como forma de protestar, mulheres afegãs em todo o mundo iniciaram um movimento online, postando fotos nas redes sociais com tradicionais roupas afegãs coloridas, sempre acompanhadas de hashtags como #AfghanistanCulture (cultura afegã) e #DoNotTouchMyClothes (não toque nas minhas roupas).

A proibição do esporte feminino é outra realidade sob o governo talibã. Embora o grupo extremista não tenha emitido uma nota oficial sobre o veto, ele se faz presente na rotina das atletas afegãs. Depois do críquete feminino, cuja proibição foi anunciada pelo vice-líder da comissão cultural do Taleban, Ahmadullah Wasiq, a repressão atingiu outra modalidade muito popular no país: o taekwondo.

O Afeganistão tem apenas duas medalhas olímpicas em sua história: dois bronzes conquistados pelo atleta do taekwondo Rohullah Nikpai em Beijing 2008 e Londres 2012. As conquistas de Nikpai no masculino popularizaram o esporte no país, inclusive entre as mulheres. Porém, agora que o Taleban assumiu o poder, a prática tem se restringido aos homens, e as escolas que ofereciam aulas de taekwondo para mulheres fecharam as portas.