Facção da Al-Qaeda reivindica ataque a forças de paz da ONU no Mali

Insegurança levou a ONU a encerrar mais cedo que o planejado sua missão na cidade de Ber, no norte do país africano

O Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (GSIM, na sigla em francês), facção da Al-Qaeda na África, assumiu a autoria do ataque que feriu ao menos quatro soldados de paz da ONU (Organização das Nações Unidas) no norte do Mali no último domingo (13). As informações são do site The Defense Post.

O ataque ocorreu quando a Minusma, a missão de paz da ONU, após retirar seus homens da cidade de Ber, seguia por uma estrada rumo a Timbuktu. Inicialmente, as Nações Unidas relataram três feridos, número posteriormente corrigido para quatro.

“A Minusma antecipou sua retirada de Ber devido à deterioração da segurança na área e aos altos riscos que isso representa para os nossos capacetes azuis”, disse a missão através do Twitter. “Nosso comboio que se retirou de Ber foi atacado duas vezes.”

O GSIM reivindicou também a autoria de um segundo ataque ocorrido no domingo, este contra as forças armadas do Mali. O SITE, um grupo norte-americano que monitora a atividade terrorista global, informou que um militar maliano foi morto na ação.

Por sua vez, o governo do Mali disse que suas forças de segurança foram atacadas no sábado (12) por “grupos terroristas armados”, ação que teria matado seis soldados. Não está claro se as informações estão desencontradas ou se ocorreram dois ataques diferentes contra o exército maliano.

Comboio da Minusma, missão da ONU no Mali, em data incerta (Foto: twitter.com/UN_MINUSMA)
Fim da missão de paz

Após anos de tensões entre a ONU e a junta militar do Mali, o fim planejado da Minusma está próximo, a pedido do governo local. O ministro das Relações Exteriores maliano Abdoulaye Diop, disse ao Conselho de Segurança que a missão “se tornou parte do problema ao alimentar as tensões intercomunitárias” na nação.

A ONU chegou a anunciar que encerraria a missão completamente em junho, mas seguirá o cronograma estabelecido pelo governo local. Assim, seguirá ativa até o final do ano, adotando um processo gradativo de retirada de seus homens que tende a ser concluído até o dia 31 de dezembro.

A missão das Nações Unidas desempenhou um papel crucial na proteção dos civis contra a insurgência islâmica, que já causou milhares de mortes. Especialistas temem que a partida da missão deixe o exército maliano subequipado, lutando contra militantes que controlam vastas áreas do deserto ao norte e no centro do país, com o apoio de cerca de mil combatentes do Wagner Group, ligado à Rússia.

Criada em 2013, a Minusma é a missão com maior número de baixas desde que foi estabelecida pelas Nações Unidas, em 2013, com 309 mortes. ChadeBangladesh e Egito são os países que mais cedem militares à missão.

Por que isso importa?

O Mali vive um período de instabilidade que começou com o golpe de Estado em 2012, quando grupos rebeldes e insurgentes islâmicos tomaram o poder no norte do país. De quebra, a nação, independente desde 1960, viveu em maio de 2021 o terceiro golpe de Estado em um intervalo de apenas dez anos, seguindo o que já havia ocorrido em 2012 e também em 2020.

A mais recente turbulência política começou semanas antes do golpe, com a demissão do primeiro-ministro Moctar Ouane pelo presidente Bah Ndaw. Reconduzido ao cargo pouco depois, Ouane não conseguiu formar um novo governo, e a tensão aumentou com a falta de pagamento dos ingressos dos professores. O maior sindicato da categoria, então, começou a se preparar para uma greve.

Veio a noite do dia 24 de maio, quando o coronel Assimi Goita, vice-presidente do país, destituiu Ndaw e Ouane de seus cargos e ordenou a prisão de ambos na capital Bamako. Segundo ele, os dois líderes civis violaram a carta de transição ao não consultarem os militares na formação do novo governo.

Ao contrário do que ocorreu em golpes anteriores, que contaram com apoio popular, desta vez a maior parte da população rejeitou a tomada de poder por Goita, que derrubou o governo de transição recém-instituído e assumiu o comando do país. A população civil não foi às ruas protestar contra o militar, mas usou as redes sociais para mostrar sua insatisfação.

Em meio à instabilidade política, cresceu no país a presença de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda e principalmente ao Estado Islâmico (EI), o que levou a uma explosão de violência nos confrontos entre extremistas e militares, com milhares de civis entre as vítimas.

Os conflitos, antes concentrados no norte do Mali, se expandiram inclusive para os vizinhos Burkina Faso e Níger. Assim, a região central maliana se tornou um dos pontos mais violentos de todo o Sahel africano, com frequentes assassinatos étnicos e ataques extremistas contra as forças do governo.

A situação tornou-se ainda mais delicada devido à retirada das tropas da França, que até agosto de 2022 colaboravam com o governo nacional nas operações de contraterrorismo. A decisão de Paris de evacuar seus militares gerou dúvidas quanto à capacidade de o país africano sustentar os avanços obtidos na luta contra os insurgentes.

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