África

Para população, Zimbábue está pior desde queda de ditador Mugabe

Com reformas rasas e insegurança alimentar, inflação chega a 700% e cerca de 90% da população está desempregada

Mergulhado em corrupção, desemprego e com uma inflação que chega a 700% ao ano, o Zimbábue está longe de apresentar a evolução almejada pela população quando apoiou a deposição do ditador Robert Mugabe, em 2017.

Três anos depois, o sucessor e atual presidente, Emmerson Mnangagwa, ainda não conseguiu livrar o país, de cerca de 15 milhões de habitantes, da miséria. Pelo contrário, muitos acreditam que a situação só piorou.

“Não vi nenhuma mudança desde que Mnangagwa assumiu”, disse Amos Chivedede à Al-Jazeera. “Tudo piorou. A economia está com problemas, não houve criação de empregos. Só a indústria ainda está de pé”.

Para população, Zimbábue está pior desde queda de ditador Mugabe
O presidente do Zimbábue, Emmerson Mnangagwa, na cúpula da União Africana, na capital da Ruanda, Kigali, em março de 2018 (Foto: Flickr/Paul Kagame Press)

Depois de ser demitido de seu emprego como vendedor, Chivedede, que apoiou o golpe contra Mugabe, passou a oferecer fretes em uma carroça pelas ruas da capital, Harare.

Além dele, outros 1,2 milhão foram empurrados para a informalidade nos últimos 18 meses. Estimativas apontam que 90% da população zimbabuana está sem trabalho.

Queda livre

Pouco antes da deposição de Mugabe, em novembro de 2017, o Zimbábue registrava uma inflação de 2,97%. No outro ano, já sob o comando de Mnangagwa, o índice saltou para 31%.

Em setembro deste ano, o valor chegou a 659,4% após um pico de 837% em julho. Sem emprego e com uma inflação nas alturas, a população se vê diante de um inimigo ainda maior: a fome.

Em dezembro de 2019, o Programa Mundial de Alimentos alertou para a pior crise de fome da última década no país. À época, 7,7 milhões – ou metade da população – sofriam de insegurança alimentar e desnutrição.

Para população, Zimbábue está pior desde queda de ditador Mugabe
Protestos contra o ditador Robert Mugabe, na capital do Zimbábue, Harare, em novembro de 2017 (Foto: Domínio público)

Além disso, as promessas de instaurar um período democrático pós-Mugabe também não corresponderam às expectativas.

Com reformas rasas, há relatos de violações aos direitos humanos, perseguição a ativistas e ameaças a oponentes – ações que repetem a autocracia do ditador morto em 2019, aos 95 anos.

Ao mesmo tempo, apoiadores afirmam que as mudanças acontecem. À Al-Jazeera, parte da população do Zimbábue disse perceber uma redução gradativa de filas em postos de combustível e cortes de energia.

“Mas eu ainda esperava ter mais empregos e um país melhor. A vida é mais difícil agora”, disse Beulah Muchaya, mãe de três filhos, que passa o dia em pé vendendo salgados em uma das avenidas mais movimentadasde Harare.