EUA contestam ‘falta de transparência’ no pacto de segurança entre Ilhas Salomão e China

Washington promete "responder" caso se confirme a informação de que Beijing construirá uma base militar na nação insular
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O governo dos EUA voltou a contestar, na terça-feira (26), o pacto de segurança firmado entre as Ilhas Salomão e a China, destacando a “completa falta de transparência” do acordo. A maior preocupação é a possibilidade de Beijing construir uma base militar na nação insular, ao que Washington promete uma resposta caso a expectativa se confirme. As informações são da rede Radio Free Asia.

“Acho que está claro que apenas um punhado de pessoas em um círculo muito pequeno viu esse acordo, e o próprio primeiro-ministro foi citado publicamente dizendo que só compartilharia os detalhes com a permissão da China, o que acho que é uma fonte de preocupação também”, disse Daniel Kritenbrink, o principal funcionário do Departamento de Estado dos EUA para a Ásia.

Ao lado de Kurt Campbell, coordenador da Casa Branca no Indo-Pacífico, Kritenbrink integrou uma delegação que visitou as Ilhas Salomão e manteve uma reunião de cerca de 90 minutos com o primeiro-ministro Manasseh Sogavare.

“É claro que respeitamos a soberania das Ilhas Salomão. Mas também queríamos que eles soubessem que, se fossem tomadas medidas para estabelecer uma presença militar permanente de fato, capacidades de projeção de poder ou uma instalação militar, teríamos grandes preocupações e responderíamos muito naturalmente a essas preocupações”, disse o diplomata.

EUA contestam 'falta de transparência' no pacto de segurança entre Ilhas Salomão e China
Primeiro-ministro das Ilhas Salomão, Manasseh Sogavare (esq.), e o premiê chinês, Li Keqiang (Foto: divulgação/fmprc.gov.cn)

Questionado sobre a questão, o premiê salomônico tem negado que a base será construída. Entretanto, Malcolm Davis, analista sênior do think tank Australian Strategic Policy Institute (ASPI), diz que o estrago já está feito, e as nações ocidentais precisam se habituar à presença militar chinesa nas Ilhas Salomão. “Acho que agora que o acordo de segurança foi oficialmente assinado, há pouco que os EUA ou a Austrália possam fazer para revertê-lo”.

Davis afirma que a construção da base militar deve mesmo ocorrer, apesar das negativas do premiê. “Austrália e EUA podem tentar usar a diplomacia para convencer o governo de Sogavare a não permitir que essa base seja estabelecida rapidamente, ou restringir seu tamanho e função”, disse ele. “Mas há poucas chances de que esses esforços tenham sucesso, pois está claro que Sogavare está alinhado com a China”.

Presença militar

No final de março, vazou uma carta de intenções indicando que a China planejava estabelecer uma base militar nas Ilhas Salomão, o que fez soar o alarme na vizinha Austrália e em outros aliados ocidentais no Indo-Pacífico, colocando a pequena nação insular no olho do furacão de um debate tenso sobre o futuro da região.

No documento, uma empresa chinesa de engenharia “demonstra intenção de estudar a oportunidade de desenvolver projetos navais e de infraestrutura em terrenos arrendados para a Marinha do Exército de Libertação Popular, para a Província de Isobel, com direitos exclusivos por 75 anos”.

Na mesma época em que a carta veio a público, o premiê das Ilhas Salomão, Manasseh Sogavare, confirmou que estava prestes a assinar o acordo de segurança com a China. Na ocasião, ele definiu como “insultantes” as preocupações australianas e neozelandesas de que o pacto poderia causar instabilidade na segurança da região.

Nesta terça-feira (19), o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, afirmou que o acordo já foi assinado, de acordo com o jornal britânico Guardian. Ele não especificou quando e onde ocorreu a assinatura, que também foi confirmada pela embaixada chinesa em Honiara.

Por que isso importa?

As Ilhas Salomão vivem um período de intensa agitação social, que especialistas associam a questões étnicas e históricas, à corrupção estatal e ao movimento do governo para estreitar laços com a China.

Com população de cerca de 700 mil pessoas, a nação insular fica localizada em território estratégico, bem no centro de um cabo de guerra geopolítico. O país tem se aproximado de Beijing desde 2019, quando mudou o reconhecimento diplomático de Taiwan para a China, sublinhando a crescente influência chinesa em uma região que era tradicionalmente dominada por EUA e Austrália.

Para James Batley, um ex-alto comissário australiano para as Ilhas Salomão e especialista em assuntos sobre Ásia-Pacífico da Universidade Nacional Australiana, o desagrado da população em relação à aproximação com a China serviu como gatilho para a desordem popular que explodiu em novembro de 2021.

“Não é política externa em si, mas acho que essa mudança diplomática alimentou as queixas pré-existentes e, em particular, a sensação de que os chineses interferiram na política nas Ilhas Salomão, que o dinheiro chinês de alguma forma fomentou a corrupção, distorceu a forma como a política funciona nas Ilhas Salomão”, disse Batley.

A relação comercial com a China é considerada particularmente predatória pela população local. Mais da metade de todos os frutos do mar, madeira e minerais extraídos do Pacífico em 2019 foi para a China. A estimativa é de que esse processo tenha movimentado US$ 3,3 bilhões, apontou uma análise de dados comerciais do jornal britânico The Guardian.

Para alimentar e gerenciar a população de quase 1,4 bilhão de habitantes, a China tirou do Pacífico mais recursos do que os dez países da região juntos. Nas Ilhas Salomão e em Papua Nova Guiné, por exemplo, mais de 90% do total de madeira exportada foi para os chineses.

Os dados não levam em consideração as exportações ilícitas. Nas Ilhas Salomão, pelo menos 70% das toras são exportadas de madeira ilegal. A falta de leis na China contra esse tipo de importação absorvem o envio devido à alta demanda e proximidade com a região.

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