Ásia e Pacífico

Relatório indica que australianos publicam conteúdo previamente censurado na China

Material em chinês, publicado em veículos da Austrália, sofre com a autocensura de tradutores que temem o governo da China

Veículos de comunicação em língua chinesa na Austrália têm publicado notícias que passam por censura prévia de tradutores da China, de modo a evitar repercussões negativas em Beijing. A constatação surge em um relatório do think tank australiano Lowy Institute, feito a pedido do governo da Austrália.

Segundo o documento, uma equipe na China pratica autocensura ao traduzir para o chinês notícias tiradas da imprensa australiana. Traduzido e censurado, o conteúdo é então publicado na internet e em jornais impressos voltados à comunidade chinesa que vive na Austrália. A prática ocorre para evitar eventuais retaliações de autoridades chinesas quanto a conteúdos que possam soar desfavoráveis a Beijing.

O curioso é que, embora publiquem o conteúdo censurado, os veículos têm uma visão pró-Austrália. “Os meios de comunicação em língua chinesa na Austrália são mais propensos a apoiar a política do governo australiano do que a política do governo chinês ao informarem sobre as tensões na relação Austrália-China. Mas eles editam para amenizar ou remover as críticas à China e ao governo chinês”, diz o relatório.

Mídia chinesa no país tem sido observada por supostas ligações com o Partido Comunista Chinês (Foto: Garry Knight/Flickr)

Os editores também se policiam porque ficam sujeitos a prejuízo financeiro caso o conteúdo acabe bloqueado nas plataformas de mídia social chinesas, aponta o documento. A distribuição, que também atinge a China continental, ocorre principalmente via redes sociais chinesas, como o WeChat, aplicativos de notícias e sites.

A autora do relatório, a acadêmica Fan Yang, explica que a mídia chinesa na Austrália está sob constante observação dos australianos, sempre desconfiados da influência que Partido Comunista Chinês (PCC) possa exercer no país vizinho. Sobretudo num momento de distanciamento entre as duas nações, o que inclui acusações de ataques cibernéticos e desarranjo nas relações comerciais.

Autocensura

O estudo analisou 500 notícias e realizou entrevistas com profissionais de mídia em língua chinesa, revelando que a autocensura dos veículos não significa que eles estejam politicamente alinhados com a China, mas, sim, temerosos com possíveis punições.

“Os profissionais da mídia chinesa estão preocupados com as possíveis penalidades que Beijing pode impor a seus funcionários, suas famílias e à receita de sua empresa de mídia”, disse o relatório.

De acordo com o think tank australiano, o objetivo principal da tradução de conteúdo de veículos australianos é ajudar os imigrantes chineses a se integrarem à sociedade australiana.

O estudo examinou três veículos de comunicação, incluindo dois jornais diários com circulação de cerca de 20 mil cópias, e um portal de notícias que usa as plataformas de mídia social chinesa Weibo e WeChat para atingir um público de 600 mil pessoa.

As traduções de matérias publicadas pelos principais meios de comunicação australianos representaram 97,8% do conteúdo, que aborda principalmente os pontos de vista da política australiana, com críticas ao governo chinês devidamente removidas.