O que as contas chinesas removidas pelo Twitter estavam publicando?

Perfis impulsionavam mensagens pró-Beijing na rede social, dando a elas aparência de protestos da sociedade civil
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As 23,7 mil contas chinesas suspensas pelo Twitter no último dia 3 eram responsáveis por impulsionar mensagens que influenciassem o público global em questões consideradas importantes para Beijing. É a conclusão do relatório “Sockpuppets Spin Covid Yarns“, divulgado na última quinta (11) pelo observatório de internet da Universidade de Stanford, nos EUA.

A tática usada pelos chineses recebeu o nome “astroturf”, explica o estudo do Stanford Internet Observatory. Significa mascarar os patrocinadores da mensagem, dando a ela aparência de espontaneidade, como se originada ou apoiada pela sociedade civil.

O objetivo é criar, por meio da “formação de apoio e lobby”, uma “tentativa de desvio ou contribuição para percepção da opinião pública sobre [um determinado] assunto”.

As contas chegaram a liberar 348.608 tweets, associados ao governo chinês. Segundo a plataforma, trata-se do “mesmo ator estatal responsável pelas aproximadamente 200 mil contas suspensas em agosto de 2019”.

O estudo conclui que sobretudo “no contexto da pandemia, observamos agora um amplo espectro de operações de propaganda que abrangem contas de mídia secretas e atribuíveis e contas secretas de mídia social.”

O que as contas chinesas removidas pelo Twitter estavam publicando?
A bandeira chinesa em imagem feita em Xangai (Foto: Piqsels)

A estratégia chinesa

É possível analisar a tática de “astroturf” de Beijing observando a cronologia dos tuítes sobre o novo coronavírus.

Até o início de fevereiro de 2020, circulavam tuítes que criticavam o bilionário e ativista político Guo Wengui, militantes de Hong Kong e conselheiros distritais por “espalharem rumores sobre a gravidade do surto” e usarem a epidemia como “balas de pânico”.

Os tweets também pediam a Hong Kong e à China continental que se “unissem” e trabalhassem juntos para combater a Covid-19.

Quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou a doença como emergência de saúde global, em 30 de janeiro, a “opinião pública” mudou. Naquele momento, passam a elogiar a resposta do governo chinês à pandemia.

Os elogios continuaram em março de 2020, quando o epicentro da pandemia mudou para a Europa e os casos de Covid-19 começaram a diminuir entre os chineses. “A China é um grande país responsável”, afirmavam as manifestações no Twitter. 

Os falsos tuiteiros afirmavam que o vírus era o “inimigo do mundo”, pedindo “cooperação e unidade internacional”. Até que os EUA começaram a subir e, com eles críticas de Washington a Beijing.

Neste momento, os tuítes passam a se queixar da resposta dos EUA ao novo coronavírus e exortavam a Casa Branca a “aprender com os sucessos da China” e “deixar de lado o viés político”.

Imagem que acompanhava alguns tuítes, afirmando que“Wuhan deve vencer! A China deve vencer!" (Foto: Reprodução/Twitter)
A imagem, que acompanhava alguns tuítes, diz que “Wuhan deve vencer! A China deve vencer!” (Foto: Reprodução/Twitter)

Impulsionamento

Para o público ocidental, os tweets em inglês em março relataram sobretudo notícias relacionadas ao surto. A maioria vinha de contas da mídia estatal, como China Daily, além da também chinesa Globaltimes News e da iraniana PressTV.

Também eram impulsionados comentários de autoridades chinesas, como do embaixador nas Nações Unidas, Chen Xu, e do Ministério das Relações Exteriores.

O conteúdo desafiava a ideia de que a China demorou a informar a doença ao mundo, alegando que Beijing agiu de forma “rápida e transparente”. Em abril, as contas informavam que situação chinesa estava sob controle. A “unidade” e o “espírito nacional levaram ao renascimento de Wuhan”, diziam as mensagens.

Os tuítes alternavam-se entre queixas ao Trump e propostas de apoio aos EUA neste “momento difícil”, no qual os dois países deviam cooperar.

“É especialmente preocupante quando bloqueios semelhantes nas sociedades livres ocidentais parecem tão frouxos hoje. O alto número de números relacionados a epidemias continua a subir, o que é realmente inaceitável. Espero que a administração de Trump possa reverter sua posição política o mais rápido possível, invista totalmente na superação da epidemia, fortaleça a cooperação internacional e aumente seu controle”, diziam algumas mensagens.

Dissidências rebeldes

As contas também tentavam forjar consenso na opinião pública mundial sobre alguns assuntos. Cerca de três semanas antes do governo de Hong Kong introduzir uma norma que bania máscaras como resposta às manifestações que varriam o território, os perfis chineses opinavam que “Hong Kong precisa de uma lei anti-máscara”.

No início de janeiro de 2020, os tuítes usavam o termo “Revolução das Cores”. A alcunha se popularizou em movimentos pró-democracia liberal na antiga União Soviética, na China e nos países da ex-Iugoslávia.

Na imagem, compartilhada nos tuítes, lê-se: “combate à tempestade negra: a polícia está exausta e você é o verdadeiro guardião de Hong Kong” (Foto: Reprodução/Twitter)

As mensagens “aumentaram significativamente em 10 de janeiro e continuaram até 23 de janeiro”, afirmou o Stanford Internet Observatory.

Entre elas, lia-se que a “Revolução das Cores provavelmente não vai durar muito”, chamava-se os manifestantes de “ignorantes” e dizia que faziam parte de uma “conspiração política de vilões políticos”. 

O estudo observou que foram publicados poucos tuítes sobre Taiwan, mesmo durante a eleição presidencial deste ano.

Apenas 1%, ou 3.310 mensagens, continham palavras-chave relacionadas à “província rebelde”. O motivo seria a baixa popularidade do Twitter em Taiwan, se comparada a Hong Kong.

A conclusão da universidade norte-americana é a de que a tática “coloca a China entre um punhado de outros atores estatais com capacidades e comprometimento semelhantes”.

“Mais pesquisas colaborativas são necessárias para entender as táticas, técnicas e procedimentos usados para garantir que operações futuras sejam prontamente detectadas e interrompidas”, informa o estudo.

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