Rússia força a mídia a excluir matérias investigativas sobre Putin e Kadyrov

Reportagens investigativas da agência Proekt abordam relação extraconjugal do presidente russo e suposta segunda esposa do líder checheno
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Autoridades russas forçaram veículos de imprensa a excluírem conteúdo relacionado a reportagens investigativas sobre a suposta filha extraconjugal do presidente russo Vladimir Putin e a suposta segunda esposa do líder checheno Ramzan Kadyrov. As informações são do jornal independente The Moscow Times.

O Roskomnadzor, órgão russo regulador de internet e dos meios de comunicação, notificou a emissora independente Dozhd para que exclua 30 artigos e vídeos com base em material produzido pela agência investigativa Proekt, rotulada como “organização indesejável”.

“As notificações dizem que há um dia para informar o proprietário do site sobre os materiais bloqueados, depois eles devem ser imediatamente excluídos”, disse a Dozhd.

Encontro entre o presidente russo, Vladimir Putin, e o líder checheno, Ramzan, Kadyrov, em imagem de 2018 (Foto: Kremlin)

O veículo detalhou que o material excluído incluía reportagens da Proekt sobre bens e propriedades de altos funcionários do Kremlin e suas ligações com figuras obscuras, além de apontar para uma possível relação entre a milionária Svetlana Krivonogikh – a quem o portal diz ter sido uma “ex-faxineira” – e Putin, com quem teria uma filha ilegítima. Conteúdo sobre uma suposta segunda esposa de Kadyrov também foi barrado.

Já o site de notícias Znak.com informou ter recebido 15 avisos de Roskomnadzor para excluir o material originado das denúncias da Proekt. “As peças foram publicadas entre 2018 e 2021, antes que a Proekt fosse reconhecida como uma ‘organização indesejável’”, argumentou o veículo em nota.

A agência de notícias The Bell recebeu 10 notificações do gênero, disse seu editor-chefe a Dozhd. Outros veículos russos que receberam notificações semelhantes para excluir material baseado na Proekt incluem Meduza e The Village.

Leonid Volkov, um assessor próximo ao principal opositor do Kremlin, Alexei Navalny, classificou as exclusões como um ato “orwelliano” de censura.

“Embora a Proekt tenha sido reconhecida como uma ‘organização indesejável’, os materiais excluídos foram publicados em uma época em que as atividades do veículo eram um trabalho jornalístico completamente legítimo”, disse Volkov.

Perseguição à imprensa

O Ministério da Justiça russo passou a listar o Proekt entre as “organizações indesejáveis” em julho, obrigando seus jornalistas a pararem de trabalhar sob o risco de processos criminais. A decisão tornou irregular a atuação do site jornalístico, em represália contra uma série de reportagens sobre erros ou ações questionáveis do presidente e de alguns de seus aliados.

A decisão também respinga em todos os demais veículos jornalísticos do país, que ficam proibidos de fazer qualquer referência a conteúdo publicado pelo Proekt, associado à organização norte-americana Project Media Inc..

Jornalistas do site vinham investigando altos funcionários do Kremlin e haviam noticiado questões tidas como delicadas pelo governo, entre elas os erros no combate à Covid-19 e o envio de soldados mercenários à África. Também estavam na pauta do site o líder chechêno Ramzan Kadyrov e o empresário Yevgeny Prigozhin, aliados de Putin.

Por que isso importa?

Organizações não governamentais, veículos de imprensa e os colaboradores de ambos têm sido alvo de uma dura repressão do governo Putin, com o respaldo da Justiça do país. A perseguição se escora na “lei do agente estrangeiro”, que foi aprovada em 2012 e modificada diversas vezes, dando às autoridades o poder de acessar todas as informações privadas das instituições e indivíduos listados como “agentes estrangeiros”.

A designação também carrega conotações negativas da era soviética e serve para rotular o que seriam organizações envolvidas em atividades políticas financiadas pelo exterior. A classificação determina que os veículos rotulem todo o seu conteúdo, uma exigência legal que acaba por afastar potenciais parceiros e anunciantes. Organizações que não cumprem a lei podem ser forçadas a fechar, como ocorreu com o site VTimesem junho. Outros, como o Meduza.io, evitaram o fechamento através de esforços de crowdfunding.

Órgãos e indivíduos listados e que não atendam às exigências impostas pela lei podem pegar pena de até dois anos de prisão, de acordo com o código penal russo, e as organizações correm o risco de serem proibidas de funcionar. Tal sistema repressivo tem sido a principal arma do Kremlin para calar os críticos, levando a ordens de prisão, casos de exílio forçado e ao fechamento de entidades.

Muitos jornalistas ligados ao oposicionista Alexei Navalny, atualmente preso em Moscou, tiveram suas casas invadidas pela polícia sob ordens de busca e apreensão e também foram adicionados à lista de “agentes estrangeiros”. O advogado Ivan Pavlov foi o mais recente partidário de Navalny a deixar a Rússia em consequência da repressão do Estado escorada na legislação.

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