França cita ‘abusos em massa’ após suposta operação de contraterrorismo no Mali

Governo malinês diz que matou mais de 200 terroristas em ação do exército. relatos sugerem que há muitos civis entre as vítimas
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Em uma operação militar realizada no final de março, o governo do Mali diz ter matado 200 terroristas ligados a grupos islâmicos atuantes no país. Entretanto, organizações humanitárias alegam que há muitos civis inocentes entre as vítimas, uma informação que gerou manifestação de preocupação do governo da França, da União Europeia (UE) e dos EUA. As informações são da rede France 24.

“A França está profundamente preocupada com as informações de abusos em massa na vila de Moura por elementos das forças armadas malianas acompanhados por mercenários russos do Wagner Group, que teriam causado a morte de centenas de civis”, disse o Ministério das Relações Exteriores francês no Twitter.

No comunicado, Paris pediu a abertura de uma investigação internacional para apurar as denúncias. “A luta contra os grupos terroristas que operam no Sahel não pode de forma alguma justificar as violações dos direitos humanos”, diz o texto. “A violência indiscriminada contra populações civis apenas fortalece esses grupos”.

A UE também se manifestou sobre o episódio e disse estar “muito preocupada”, conforme comunicado assinado pelo chefe da diplomacia do bloco, Josep Borrell. Já o Departamento de Estado norte-americano classificou os relatos como “extremamente perturbadores” e igualmente pediu um inquérito internacional para apurar o caso.

O coronel Assimi Goita,, líder da junta militar que governa o Mali (Foto: Reprodução/Facebook)

Retirada de tropas

Principal aliada ocidental do Mali, a França marca presença militar no país há nove anos, período no qual foi determinante para acabar com o domínio de grupos extremistas sobretudo na região norte malinesa. Desde o ano passado, porém, as forças armadas francesas iniciaram um processo de retirada de tropas, devido a um desacerto entre os governos francês e malinês. A decisão de Paris gerou dúvidas quanto à capacidade de o Mali sustentar os avanços na luta contra o jihadismo.

Uma das razões para a retirada francesa foi a decisão do coronel Assimi Goita, que assumiu o poder no golpe de Estado de maio de 2021, de firmar um acordo para contratação dos mercenários russos do Wagner Group, misteriosa organização paramilitar privada acusada de crimes de guerra em conflitos dos quais participou em diversas partes do mundo.

Wagner é uma milícia notória na Síria e na República Centro-Africana por ter cometido abusos e todos os tipos de violações que não correspondem a nenhum solução, e por isso é incompatível com a nossa presença”, disse o ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian.

Também pesou contra a colaboração entre os dois governos a possibilidade levantada diversas vezes por Goita de abrir negociações com grupos terroristas, decisão rejeitada por Paris, bem como a demora para se realizar no país nova eleição democrática, ampliando a duração do governo militar.

A retirada de tropas deve se estender por mais alguns meses, período pelo qual da França diz que “as operações continuam contra grupos terroristas armados, especialmente contra os principais líderes da Al-Qaeda, Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (GSIM, na sigla em francês) e o grupo Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS)”.

Por que isso importa?

A instabilidade no Mali começou com o golpe de Estado em 2012, quando vários grupos rebeldes e extremistas tomaram o poder no norte do país. De quebra, a nação, independente desde 1960, viveu em maio de 2021 o terceiro golpe de Estado em um intervalo de apenas dez anos, seguindo o que já havia ocorrido em 2012 e também em 2020.

A mais recente turbulência política começou semanas antes do golpe, com a demissão do primeiro-ministro Moctar Ouane pelo presidente Bah Ndaw. Reconduzido ao cargo pouco depois, Ouane não conseguiu formar um novo governo, e a tensão aumentou com a falta de pagamento dos salários dos professores. O maior sindicato da categoria, então, começou a se preparar para uma greve.

Veio a noite do dia 24 de maio, quando o coronel Assimi Goita, vice-presidente do país, destituiu Ndaw e Ouane de seus cargos e ordenou a prisão de ambos na capital Bamako. Segundo ele, os dois líderes civis violaram a carta de transição ao não consultarem o militar na formação do novo governo.

Ao contrário do que ocorreu em golpes anteriores, que contaram com apoio popular, desta vez a maior parte da população malinesa rejeitou a tomada de poder por Goita, que derrubou o governo de transição recém-instituído e assumiu o comando do país. A população civil não foi às ruas protestar contra o militar, mas usou as redes sociais para mostrar sua insatisfação.

Militarmente, especialistas e políticos ocidentais enxergam uma geopolítica delicada na região, devido ao aumento constante da influência de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico (EI) e à consequente explosão da violência nos confrontos entre extremistas e militares. Além disso, trata-se de uma posição importante para traficantes de armas e pessoas, e o processo em curso de redução das tropas franceses, que atuam no país desde 2013, tende a piorar a situação.

Os conflitos, antes concentrados no norte do país, se expandiram inclusive para os vizinhos Burkina Faso e Níger. A região central do Mali se tornou um dos pontos mais violentos de todo o Sahel africano, com frequentes assassinatos étnicos e ataques extremistas contra forças do governo.

No Brasil

Casos mostram que o Brasil é um porto seguro para extremistas. Em dezembro de 2013, levantamento do site The Brazil Business indicava a presença de ao menos sete organizações terroristas no Brasil: Al Qaeda, Jihad Media Battalion, Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica, Al-Gama’a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Islâmico Marroquino.

Em 2001, uma investigação da revista VEJA mostrou que 20 membros terroristas de Al-Qaeda, Hamas e Hezbollah viviam no país, disseminando propaganda terrorista, coletando dinheiro, recrutando novos membros e planejando atos violentos.

Em 2016, duas semanas antes do início dos Jogos Olímpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista islâmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao Estado Islâmico foram presos e dois fugiram.

Mais recentemente, em dezembro de 2021, três cidadãos estrangeiros que vivem no Brasil foram adicionados à lista de sanções do Tesouro Norte-americano. Eles são acusados de contribuir para o financiamento da Al-Qaeda, tendo inclusive mantido contato com figuras importantes do grupo terrorista.

Para o tenente-coronel do Exército Brasileiro André Soares, ex-agente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), o anúncio do Tesouro causa “preocupação enorme”, vez que confirma a presença do país no mapa das organizações terroristas islâmicas.

“A possibilidade de atentados terroristas em solo brasileiro, perpetrados não apenas por grupos extremistas islâmicos, mas também pelo terrorismo internacional, é real”, diz Soares, mestre em operações militares e autor do livro “Ex-Agente Abre a Caixa-Preta da Abin” (editora Escrituras). “O Estado e a sociedade brasileira estão completamente vulneráveis a atentados terroristas internacionais e inclusive domésticos, exatamente em razão da total disfuncionalidade e do colapso da atual estrutura de Inteligência de Estado vigente no país”. Saiba mais.

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