Europa

Advogado de jornalista preso na Rússia afirma que foi obrigado a deixar o país

Yevgeny Smirnov, que atualmente vive na Geórgia, atuou em defesa do jornalista Ivan Safronov, preso desde julho de 2020 sob acusação de traição

O advogado Yevgeny Smirnov, que atuou em defesa do jornalista Ivan Safronov, preso na Rússia desde julho de 2020 sob a acusação de traição, deixou o país e agora vive na Geórgia. Ele fez o anúncio na terça-feira (23), em entrevista ao site investigativo The Insider.

“É possível que tenhamos que ficar aqui neste país”, disse Smirnov, que passou a ser investigado pela FSB (Agência de Segurança Federal, da sigla em inglês). Agora, ele é acusado pelo órgão de ignorar citações judiciais na ação contra Safronov e decidiu fugir da Rússia para evitar uma possível prisão.

Smirnov é o segundo advogado do jornalista forçado a deixar o país para fugir da perseguição do governo Putin. Antes dele, Ivan Pavlov também havia trocado a Rússia pela vizinha Geórgia, cujo governo faz oposição a Moscou.

O advogado também falou sobre a situação do jornalista, preso e incomunicável. “Desde o primeiro dia da investigação, ele não recebeu telefonemas, não teve permissão para se reunir. Há mais de dois meses ele está paralisado, sem qualquer comunicação com o mundo exterior, exceto para os advogados, porque agora ele foi proibido de enviar e receber correspondência”.

Safronov foi inicialmente acusado de repassar à inteligência da República Tcheca dados sobre a venda de armas pelo governo russo na África e no Oriente Médio. Posteriormente, foi acusado também de vender segredos militares russos a um pesquisador suíço, que por sua vez os teria repassado aos serviços de inteligência da Alemanha. Se condenado, pode pegar até 20 anos de prisão.

Evgeny Smirnov, advogado russo que deixou o país devido à perseguição do governo Putin (Foto: reprodução/theins.ru)

O jornalista, que por muito tempo trabalhou na cobertura de assuntos de segurança, ocupou também o cargo de assessor de Dmitry Rogozin, antigo chefe da Roscosmos, a agência aeroespacial russa. Ele nega as acusações, que classifica como de motivação política porque ele denunciava casos de corrupção no governo..

Por que isso importa?

Organizações não-governamentais, veículos de imprensa e os colaboradores de ambos têm sido alvo de uma dura repressão do governo Putin, com o respaldo da Justiça do país. A perseguição se escora na “lei do agente estrangeiro”, que foi aprovada em 2012 e modificada diversas vezes, dando às autoridades o poder de acessar todas as informações privadas das instituições e indivíduos listados como “agentes estrangeiros”.

A designação também carrega conotações negativas da era soviética e serve para rotular o que seriam organizações envolvidas em atividades políticas financiadas pelo exterior. A classificação acaba por afastar potenciais parceiros comerciais e anunciantes, muitas vezes sufocando financeiramente as instituições rotuladas.

Órgãos e indivíduos listados e que não atendam às exigências impostas pela lei podem pegar pena de até dois anos de prisão, de acordo com o código penal russo, e as organizações correm o risco de serem proibidas de funcionar. Tal sistema repressivo tem sido a principal arma do Kremlin para calar os críticos, levando a ordens de prisão, casos de exílio forçado e ao fechamento de entidades.

Muitos jornalistas ligados ao oposicionista Alexei Navalny, atualmente preso em Moscou, tiveram suas casas invadidas pela polícia sob ordens de busca e apreensão e também foram adicionados à lista de “agentes estrangeiros”. O advogado Ivan Pavlov foi o mais recente partidário de Navalny a deixar a Rússia em consequência da repressão do Estado escorada na legislação.