Propina paga pela Ericsson no Iraque pode ter acabado nas mãos do Estado Islâmico

Empresa já havia recebido uma multa bilionária por corrupção, e o problema tende a ser bem maior por ter omitido a questão
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Em dezembro de 2019, a empresa de telecomunicações sueca Ericsson aceitou pagar uma multa de US$ 1 bilhão ao governo dos Estados Unidos por ter desrespeitado a legislação de combate à corrupção no país. Foram dezenas de milhões de dólares em propina pagos em cinco países, China, Vietnã, Indonésia, Kuwait e Djibuti, a fim de obter contratos de fornecimento de serviço e tecnologia. Agora, um novo caso de corrupção veio à tona. No Iraque, a propina da companhia pode ter acabado nas mãos do Estado Islâmico (EI). As informações são da agência Reuters.

A situação, que foi revelada na terça-feira (15) pelo CEO da Ericsson, Borje Ekholm, tende a criar novos problemas para a empresa com o governo norte-americano, inclusive com o risco de nova multa bilionária. Isso porque, não bastasse a corrupção em si, a empresa manteve a questão em segredo por muito tempo, mesmo após ter consciência do que havia acontecido desde 2019, quando foi realizada uma investigação interna.

A investigação da empresa identificou pagamentos feitos para utilizar rotas de transporte alternativas em conexão com a evasão da alfândega iraquiana. O problema é que, à época dos fatos, organizações militantes, com destaque para o EI, controlavam algumas dessas rotas. A Ericsson afirma que não é possível determinar se algum funcionário estava diretamente envolvido no financiamento de tais organizações, mas confirma que vários funcionários deixaram a empresa devido ao ocorrido.

“Investimos recursos significativos para concluir a investigação, mas, como empresa, temos poderes limitados para investigar”, disse Ekholm, tentando justificar o caso. “Tentamos fazer o melhor que podíamos, recebemos orientação de advogados externos e outros apoios externos.”

Propina paga pela Ericsson no Iraque pode ter acabado nas mãos do Estado Islâmico
Empresa sueca fez investimentos bilionários e agora colhe os frutos (Foto: Kārlis Dambrāns/Flickr)

E não poderia haver pior momento para a empresa sueca cair em desgraça com Washington. Em meio à cruzada dos Estados Unidos contra a chinesa Huawei, a Ericsson viu suas vendas no mercado norte-americano, responsável por um terço de sua receita aumentarem 17% no último trimestre de 2021, em relação ao mesmo período de 2020. Números que compensaram muito bem a perda de mercado na China, onde sofreu boicote por conta do veto da Suécia à Huawei.

A divulgação da informação de que o dinheiro da Ericsson pode ter alimentado o terrorismo fez as ações da empresa caírem mais de 10%, eliminando US$ 4 bilhões de seu valor de mercado. E coloca em xeque a posição de liderança absoluta da empresa no setor nos EUA.

Por que isso importa?

Há uma desconfiança global que recai sobre a Huawei, o que permitiu à Ericsson crescer globalmente. As suspeitas em torno da companhia chinesa remetem à Lei de Inteligência Nacional da China, de 2017, segundo a qual as empresas nacionais devem “apoiar, cooperar e colaborar com o trabalho de inteligência nacional”, o que poderia forçar particularmente a gigante da tecnologia a trabalhar a serviço do Partido Comunista Chinês (PCC).

Em 2020, parlamentares britânicos afirmaram em um relatório que a Huawei está “fortemente ligada ao Estado e ao PCC, apesar de suas declarações em contrário”. Diante disso, a empresa tem enfrentado crescente desconfiança na construção de redes 5G em todo o mundo, com a implantação rejeitada em vários países. Austrália, Nova Zelândia, Portugal, Índia, EUA e Reino Unido baniram a infraestrutura da companhia por medo de ser usada para espionagem.

As especulações referentes aos produtos de vigilância da Huawei ganharam força no final de 2021 em meio a temores na China e no mundo sobre as consequências do uso maciço do reconhecimento facial e de outros métodos de rastreamento biométrico. E, ao mesmo tempo em que o PCC continua a confiar em tais ferramentas para erradicar a dissidência e manter seu regime de partido único, ele alerta sobre o uso indevido de tecnologias no setor privado.

Em 2021, após pressão de Beijing, a Huawei e outros gigantes da tecnologia foram compelidas a não abusar do reconhecimento facial e de outras ferramentas de vigilância, após uma nova lei de proteção de dados pessoais entrar em vigor. Mas o veto vale apenas para o setor privado. No setor público, o jornal The Washington Post revelou em dezembro que a ligação da Huawei com o aparato chinês de vigilância governamental é maior que o imaginado.

Os dados aparecem em uma apresentação de Power Point que estava disponível no site da empresa e foi removida. Repleto de itens “confidenciais”, o arquivo mostra como a tecnologia da empresa pode ajudar Beijing a identificar indivíduos por voz, monitorar pessoas de interesse, gerenciar reeducação ideológica, organizar cronogramas de trabalho para prisioneiros e rastrear compradores através do reconhecimento facial.

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