Após 50 anos da visita de Nixon, relação EUA-China está mais tensa que nunca

Especialistas sugerem que a mesma aproximação de 1972 seria necessária hoje para os dois países reduzirem a inimizade

As relações diplomáticas entre China e EUA começaram oficialmente em 1979, quando Washington reconheceu a China continental e rompeu com Taiwan, algo que oficialmente se sustenta até hoje. A diplomacia só foi estabelecida porque, sete anos antes, em 1972, o então presidente norte-americano Richard Nixon fez uma visita à China, onde encontrou Mao Tsé-Tung. Após 50 anos daquele momento histórico, está muito claro que a aproximação ocorreu meramente por necessidade. E as relações, hoje, são piores que nunca. As informações são da rede Voice of America (VOA).

“A relação EUA-China sempre foi controversa, mas necessária”, disse Oriana Skylar Mastro, especialista em China da Universidade de Stanford. “Talvez 50 anos atrás as razões fossem principalmente econômicas. Agora eles estão principalmente no domínio da segurança. Mas o relacionamento nunca foi, nem nunca será, fácil”.

Em 1972, Nixon aproveitou o afastamento entre China e União Soviética para se aproximar de Beijing e ampliar o isolamento global dos soviéticos. Também usou a diplomacia para reduzir o impacto doméstico da guerra do Vietnã, encerrada em 1969. Curiosamente, foi aquela visita que permitiu a Beijing crescer e desafiar Washington como maior economia do mundo, tornando-se, consequentemente, o maior rival militar dos EUA.

Mao Tsé-Tung e Richard Nixon, em 1972 (Foto: Creative Comons)

Segundo Dali Yang, especialista em economia e política da China na Universidade de Chicago, a visita de Nixon foi um “evento crucial que deu início à virada da China e à subsequente ascensão global”.

A relação amistosa entre as nações, porém, limitou-se à visita. Segundo Rana Mitter, professor de história chinesa e política moderna na Universidade de Oxford, meio século depois, os dois países ainda não conseguiram estabelecer uma relação efetivamente cordial.

“Os EUA e a China ainda não conseguiram descobrir exatamente como ambos se encaixam em um mundo onde os dois têm um papel, mas acham cada vez mais difícil acomodar um ao outro”, disse Mitter.

Zhu Feng, reitor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Nanjing, diz que a mesma abordagem de 1972 é fundamental em 2022, caso os dois países realmente queiram superar o atual impasse. “A comemoração da visita de Nixon nos diz se podemos extrair um tipo de poder da história”, disse ele.

Se o comunismo chinês afastava os dois rivais há 50 anos, hoje os desacertos devem-se sobretudo a questões comerciais e de direitos humanos. Além, do fator Taiwan, ilha que luta pela independência em relação à China e tem nos EUA seu maior aliado, embora as relações diplomáticas entre os dois governos continuem oficialmente inexistentes. Também ajuda a azedar a relação a proximidade entre Beijing e Moscou, criando uma polarização global que remete aos principais momentos da Guerra Fria.

“As relações China-EUA são terríveis”, afirma Xiong Zhiyong, professor de relações internacionais da China Foreign Affairs University. “Há de fato pessoas esperando melhorar as relações, mas é totalmente difícil de conseguir”.

Por que isso importa?

Consequência indireta da visita de Nixon, que abriu as portas do mundo para a China, o fortalecimento militar chinês atualmente é motivo de preocupação entre os norte-americanos e assunto de interesse global devido à questão de Taiwan, justamente quem foi colocado de lado para permitir que Beijing e Washington estabelecessem relações diplomáticas em 1979.

Recentemente, um oficial de defesa dos EUA que prefere não se identificar afirmou que o crescimento do arsenal chinês pode forçar Taiwan a abandonar suas aspirações de soberania e definitivamente se colocar sob o domínio do Partido Comunista Chinês (PCC). Como os EUA são o principal aliado militar da ilha, uma ação de Beijing nesse sentido poderia desencadear um conflito entre as duas superpotências.

Em caso de guerra, a supremacia militar dos EUA não é uma garantia, considerando o alto investimento da China no setor. Analistas e líderes militares ouvidos VOA afirmam inclusive que Beijing pode superar os Estados Unidos como mais poderosa força aérea do mundo na próxima década.

Em setembro de 2021, durante uma conferência militar, o general Charles Brown Jr., chefe do Estado-Maior da força aérea norte-americana, qualificou o exército chinês como detentor das “maiores forças de aviação do Pacífico”. E disse que o posto foi alcançado “debaixo de nosso nariz”, sem uma resposta à altura. Mais: ele projetou que a China pode assumir a supremacia aérea militar global em 2035.

No mesmo evento, o tenente-general S. Clinton Hinote manifestou opinião semelhante e advertiu que os EUA não acompanham os avanços da China. “Em algumas áreas importantes, estamos atrasados. E falo ‘nesta noite’. Esse não é um problema de amanhã. É de hoje”. Posteriormente, em conversa privada com jornalistas, reforçou a opinião de que os chineses já igualaram os avanços tecnológicos norte-americanos no setor.

arsenal nuclear da China também tem aumentado num ritmo muito maior que o imaginado anteriormente, levando a nação asiática a reduzir a desvantagem em relação aos Estados Unidos nessa área. Relatório recente do Pentágono sugere que Beijing pode atingir a marca de 700 ogivas nucleares ativas até 2027, tendo a meta de mil ogivas até 2030.

Por ora, o poder de fogo nuclear da China não se compara ao dos Estados Unidos, que têm cerca de 3,8 mil ogivas e não planejam ampliá-lo. Na verdade, o arsenal norte-americano foi drasticamente reduzido nos últimos anos, considerando que em 2003 eram cerca de 10 mil dispositivos ativos. Porém, se mantiver o projeto de longo prazo, a China planeja igualar ou mesmo superar tais números até 2049.

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