Ásia e Pacífico

Na Ásia, Tadjiquistão tem presidente ‘eleito’ pela 5ª vez, com 90% dos votos

Ex-repúblicas soviéticas são celeiro de mandatários eleitos de forma suspeita e que permanecem décadas no cargo

Se completar o quinto mandato, o presidente do Tadjiquistão, Emomali Rahmon, completará, em 2027, 35 anos no poder. À frente do país desde 1992, o líder alegou uma vitória de 90% dos votos nas eleições da segunda-feira (12).

Questionado pela OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) desde sua primeira eleição, o regime tadjique permitiu que Rahmon ocupasse a Presidência antes mesmo de o país realizar o primeiro pleito, em 1994.

Três anos antes, em 1991, o país viveu o colapso da União Soviética, da qual fazia parte, deixando um vácuo de poder nessa pequena república da Ásia Central. Este vazio acaba preenchido por Rahmon, que 30 anos depois prepara seu filho, Rustan, para um eventual sucessão.

Com pouca influência política à época, Rahmon ocupou a presidência do país após a remoção de outros quatro políticos. Assim, de líder obscuro e desconhecido, o presidente tadjique tornou-se a figura central do país até hoje, governando de maneira absoluta.

De obscuro a absoluto: conheça Emomali Rahmon, presidente do Tadjiquistão
Outdoor com a imagem do presidente Emomali Rahmon em prédio da capital do Tadjiquistão, Dushanbe, em outubro de 2016 (Foto: Flickr/leiris202)

Um pouco de história

Quatro mudanças na liderança do Tadjiquistão antecederam a entrada de Rahmon, destacou um levantamento histórico da RFE. A primeira foi em agosto de 1991, quando Qahhor Makhamov assumiu o governo de forma interina.

Aliado a militares amotinados, tentou derrubar o líder soviético Mikhail Gorbachev e foi expulso do poder 10 dias depois.

Assim, Qadriddin Aslonov assumiu as rédeas do país enquanto os protestos se estendiam em todo o território tadjique. Outra expulsão: ao banir o Partido Comunista, Aslonov não conseguiu se manter no poder e deixou o cargo após três semanas de governo.

É então que retorna o ex-líder da República Socialista Soviética, Rahmon Nabiev, que governou o país entre 1982 e 1985. Em uma nova onda de descontentamento, ele concedeu o lugar para Akbarsho Iskandarov, que tornou-se o novo presidente interino.

Mesmo que tenha supostamente vencido a eleição, Nabiev não conseguiu se manter no governo e sua vitória gerou uma guerra civil de cinco meses.

E é nesta ruptura política que surge o então desconhecido Emomali Rakhmonov, então com 40 anos. Sua concessão ao poder ocorre como líder do Parlamento, após anulação do cargo de presidente.

Eletricista de ofício, Rahmon atuou na Frota do Pacífico da Marinha Soviética e era ativo na política da região de Danghara, sua cidade natal no sudoeste do país.

O que o manteve no poder foi assumir uma posição “indefinida”: permaneceu até a instituição de novas eleições, em 1994, quando foi eleito com pouco mais de 50% dos votos.

De obscuro a absoluto: conheça Emomali Rahmon, presidente do Tadjiquistão
O presidente do Tidjiquistão, Emomali Rahmon, em pronunciamento na Assembleia da ONU em setembro de 2010 (Foto: UN Photo/Rick Bajornas)

Situação precária

Esse percurso ilustra a razão da “fama” de Rahmon como “estável” perante a comunidade internacional. A extinção das disputas políticas à guisa de estabilidade é, na realidade, um retrato do esmagamento da oposição no Tadjiquistão.

Hoje o país está mergulhado em denúncias de violações aos direitos humanos, além de viver sob uma economia frágil e alta desigualdade social.

Estima-se que a maioria da população dependa de remessas de parentes no exterior – valor que chega a 40% do PIB (Produto Interno Bruto). Além dos altos índices de desemprego, o país ainda possui uma dívida externa equivalente a mais de um terço do PIB. A China é o principal credor.

A influência russa ao país continua forte e assim deve permanecer até 2042, quando encerra o acordo da 201ª Divisão, que mantém tropas russas no Tadjiquistão. Ainda que pudesse ter sido substituído ao longo de mais de uma década, o líder tadjique aprendeu com seus antecessores que, para garantir um cargo vitalício, é vital neutralizar a oposição.