Ataque a hospital infantil engrossa lista de atrocidades atribuídas à Rússia na Ucrânia. Relembre

Massacres de Bucha e Mairupol estão entre os episódios mais violentos da guerra e podem colocar autoridades russas no banco dos réus

Um intenso bombardeio atingiu diversas cidades ucranianas na segunda-feira (8), com relatos de que mais de 30 civis foram mortos, inclusive crianças. O ataque destruiu um hospital infantil em Kiev e causou comoção global, com a ONU (Organização das Nações Unidas) relatando que menores foram obrigados a realizar tratamento contra o câncer ao lado dos escombros do prédio.

Moscou nega a autoria e afirma que um míssil de defesa antiaérea ucraniano causou a devastação. Kiev, entretanto, diz ter recolhido, em meio à destruição, destroços de um míssil de cruzeiro Kh-101 usado pelos russos. Trata-se de um artefato que voa a baixa altitude para evitar detecção dos radares, e a Ucrânia diz ter derrubado 11 deles na segunda, de acordo com a agência Associated Press (AP).

Enquanto o governo russo defende solitariamente sua versão, as alegações ucranianas ganharam o respaldo de governos estrangeiros e entidades internacionais.

A ONU disse que “diversas cidades ucranianas foram alvos de mísseis disparados pelas forças russas”, e a União Europeia (UE) não se furtou a apontar o dedo em direção a Moscou, acrescentando o ataque ao Hospital Ohmatdyt à lista das maiores atrocidades atribuídas a Moscou desde o início da guerra, em 24 de fevereiro de 2022.

A Referência relembra, abaixo, outros episódios marcantes de possíveis crimes de guerra cometidos pela Rússia, que vem sendo investigada pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), inclusive com um mandado de prisão emitido contra o presidente Vladimir Putin.

O massacre de Bucha

Em 2 de abril de 2022, pouco após a guerra completar um mês, os corpos de dezenas de pessoas foram encontrados nas ruas da cidade ucraniana de Bucha, quando as tropas locais reconquistaram a cidade três dias após a retirada do exército russo. As imagens dos mortos foram divulgadas por agências de notícias e chocaram o mundo.

Cova na cidade de Bucha, palco de possíveis crimes de guerra russos (Foto: Diego Ibarra Sánchez/Unicef)

As fotos mostravam pessoas mortas com as mãos amarradas atrás do corpo, um indício de execução. Outros corpos apareciam parcialmente enterrados, com algumas partes à mostra. Havia também muitos corpos em valas comuns. Nenhum dos mortos usava uniforme militar, sugerindo vítimas civis.

“O massacre de Bucha prova que o ódio russo aos ucranianos está além de qualquer coisa que a Europa tenha visto desde a Segunda Guerra Mundial”, disse à época o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, em sua conta no Twitterm, hoje X.

Moscou sempre negou as acusações. Através do aplicativo russo de mensagens Telegram, o Ministério da Defesa russo disse na ocasião que, “durante o tempo em que a cidade esteve sob o controle das Forças Armadas russas, nenhum morador local sofreu qualquer ação violenta”. O texto classificava as denúncias como “outra farsa, uma produção encenada e provocação do regime de Kiev para a mídia ocidental.”

Entretanto, imagens de satélite da empresa especializada Maxar Technologies derrubam o argumento da Rússia. O jornal The New York Times realizou uma investigação com base nessas imagens e constatou que objetos de tamanho compatível com um corpo humano aparecem na rua Yablonska entre 9 e 11 de março. Eles estão exatamente nas mesmas posições em que foram descobertos os corpos quando da chegada das tropas ucranianas, conforme vídeo feito por um residente da cidade em 1º de abril.

Os mortos de Mariupol

Mariupol foi um dos primeiros alvos das tropas de Moscou após a invasão. Os crimes russos na cidade têm sido denunciados desde então, inclusive pela ONU. Uma ação, em particular, teve maior repercussão. Foi o ataque aéreo de 16 de março de 2022 a um tetro que abrigava civis, primeiro episódio de repercussão global a gerar acusações de crimes de guerra contra Moscou no conflito.

Centenas de pessoas usavam o teatro para se proteger e chegaram a escrever a palavra “CRIANÇAS” em cirílico, o alfabeto russo, dos dois lados e em frente ao prédio. Os russos ignoraram o aviso. Kiev alega que cerca de 1,3 mil pessoas estavam abrigadas no teatro, mas o número de vítimas até hoje é alvo de debate.

Inicialmente se falou em cerca de 300 mortos, inclusive mulheres grávidas e crianças. Uma investigação posterior da agência Associated Press (AP), no entanto, sugeriu que o número de vítimas fatais se aproxima de 600.

Teatro de Mariupol abrigava mulheres e crianças e foi bombardeado (Foto: Ukraine Now/Telegram)

Em julho do ano passado, a organização humanitária Anistia Internacional classificou o episódio como crime de guerra, mas fez um cálculo diferente quanto ao número de vítimas. “Não está claro exatamente quantas pessoas foram mortas, mas é provável que a contagem seja muito menor do que o informado anteriormente”, disse a entidade.

O teatro, porém, é apenas um dos episódios. Kiev alega que logo no início da guerra encontrou ao menos 20 mil corpos de civis mortos em Mairupol. E acusou os soldados russos de depositarem cerca de nove mil cadáveres em valas comuns em Manhush, uma vila próxima à cidade portuária. Ao levar os corpos para outra localidade, o objetivo das tropas de Moscou seria esconder as evidências de crimes.

O prefeito Vadym Boychenko comparou a descoberta ao massacre de Babi Yar, um fuzilamento em massa comandado nas proximidades de Kiev pelos nazistas em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial. Os corpos de cerca de 33 mil pessoas, essencialmente judeus, foram encontrados em valas comuns na ocasião.

“O maior crime de guerra do século 21 foi cometido em Mariupol. Este é o novo Babi Yar. Então, Hitler matou judeus, ciganos e eslavos. Agora, Putin está destruindo os ucranianos”, disse Boychenko. “Precisamos fazer tudo o que pudermos para impedir o genocídio”.

Crianças abduzidas

Autoridades ucranianas registraram o desaparecimento de 20 mil crianças nos últimos dois anos, que alegam terem sido levadas da Ucrânia para a Rússia. E acreditam que o número real pode ser até dez vezes maior, conforme o próprio governo russo admite ter transferido 700 mil crianças ucranianas para seu território e se vangloria da ação

Moscou enxerga a abdução como algo benéfico aos menores e que diz se tratar de um movimento voluntário. Entretanto, relatos diversos, inclusive das próprias crianças, reforçam a suspeita de que foram levadas à força, havendo por trás um objetivo maior de Moscou: eliminar a existência ucraniana.

Quase dois anos após o início da guerra, crescem os temores de que o programa sistemático de Moscou para “reeducar” as crianças ucranianas possa ser eficaz de forma devastadora. As autoridades de Kiev têm apelado às organizações internacionais e a países neutros que possam influenciar a Rússia, pedindo que o Kremlin seja pressionado a abandonar a prática.

Dos cerca de 20 mil casos apurados e confirmados, as autoridades ucranianas alegam que apenas cerca de 500 crianças voltaram para casa. O caso justifica o mandado contra Putin e a comissária russa para os direitos das crianças, Maria Lvova-Belova, acusados de agir com a “intenção de remover permanentemente” crianças da Ucrânia.

Andriy Kostin, procurador-geral da Ucrânia, descreveu as ações russas como a maior deportação de crianças na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. “A Rússia está tentando destruir a nação ucraniana, não apenas fisicamente, mas também cortando os laços familiares e apagando a identidade ucraniana das crianças deportadas”, afirmou ele durante uma conferência em Riga, na Letônia, em fevereiro.

A deportação em massa forçada de pessoas durante um conflito é classificada pelo Direito Internacional Humanitário como um crime de guerra. A “transferência forçada de crianças”, particularmente, configura um ato genocida. O crime se enquadra no conceito estabelecido pela Convenção de Genocídio de 1948, um tratado adotado pela Assembleia Geral da ONU após o Holocausto. Ele define como genocídio a “intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.”

Cerco a Kharkiv

“Centenas de civis foram mortos na cidade ucraniana de Kharkiv por bombardeios russos indiscriminados usando munições cluster amplamente proibidas e foguetes inerentemente imprecisos”. A denúncia foi feita em junho pela ONG Anistia Internacional, que publicou um relatório baseado em “extensiva investigação”. Até um playground teria sido alvo, com “várias crianças” atingidas.

As munições cluster se abrem no ar e despejam uma série de bombas no solo, atingindo uma área consideravelmente maior, aumentando o dano e reduzindo as chances de as pessoas se protegerem.

O documento ressalta que a Rússia não é parte da Convenção sobre Munições Cluster ou da Convenção sobre Minas Antipessoal. Entretanto, o direito humanitário proíbe ataques indiscriminados que resultem em morte ou ferimentos de civis, ou mesmo danos a bens civis. Tais ações constituem crimes de guerra.

Área externa de hospital em Kharkiv supostamente atingido por bombas (Foto: reprodução/Facebook)

Números divulgados pelo Departamento Médico da Administração Militar Regional de Kharkiv falam em 606 civis mortos e 1.248 feridos na região desde o começo da guerra, no dia 24 de fevereiro. A Anistia, por sua vez, diz que investigou 41 ataques aéreos russos, com 62 mortos e ao menos 196 feridos ao longo de apenas 14 dias, entre abril e maio.

Um dos playgrounds citados pela Anistia fica na rua Myru e foi bombardeado no dia 15 de abril. Ao menos nove civis foram mortos, com 35 feridos, incluindo várias crianças.

Outro ataque relatado por testemunhas atingiu ucranianos que formavam fila em busca de ajuda humanitária. Foram ao menos seis mortes e 15 pessoas feridas. A investigação da Anistia encontrou partes de um foguete Uragan de 220 milímetros, que carrega 30 submunições. Ao redor da área eles também encontraram fragmentos de munições cluster e várias crateras. Mais um playground foi atingido pelas bombas russas no dia 12 de março.

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